Morri. É. Não doeu. Foi rápido e em um segundo meu sangue se esvaía pela rua. “Ela estava na faixa de pedestre”, escutei de algum dos curiosos que se juntavam ao lado do meu corpo. É, eu estava na faixa de pedestre. É o certo. Deste lado tava perto, uma sombra gostosa, mas não. Faixa de pedestre é o lugar certo e cá estou eu, morta! E por alguém que sequer prestou ajuda, mas o que ele poderia fazer? O que eu poderia fazer? Eu fiz o certo. Atravessei num lugar que é meu por direito. E morri. Há quem diga que me viu sorrir, ironicamente, como sempre fiz. A vida inteira tentando acertar, pra morrer, literalmente, acertando. E qual a graça? Nenhuma. Tudo acabou com silêncio, sangue e sorrisos de ironia. E o que mudou? Nada. Morri como vivia.
Eu podia ter enchido a cara aquele dia, e bêbada, dito tudo que consumia meu álcool. Eu não precisava cumprimentar alguém por educação, ao invés disso, podia ter abraçado mais os meus. Não precisava perder tempo negando tudo que eu sabia sentir, nem fingir que sentia algo pra ver sorrisos de ilusão. Eu podia ter errado e me divertido com isso. Ligar pra alguém na madrugada só pra dizer: “Eu quase amei você”, ou quem sabe: “Você não soube me amar”, naquele tom melódico do Rei Roberto Carlos. Podia ter dito ao gato com namorada que ele combinava muito mais comigo e que ele também sabia disso. Quem sabe, dizer a namorada de um outro rapaz que ela era gata demais pra ele. Ou dizer ao cara: "Você é o homem certo pra mim." Eu podia ter falado tudo que queria, as consequências acabariam junto comigo e as pessoas sentiriam saudade da sinceridade amarga que eu trazia comigo.
Mas não, eu calei. Sempre calei. Nos dias que estive bêbada, desliguei o celular e deixei que o álcool consumisse só a mim. Sempre usei a política da boa vizinhança e sorria para os que me apunhalavam as costas. Nunca iludi ninguém, que não eu... Me convencendo a sentir o conveniente e ignorando o óbvio, o inevitável. Não fiz ligações na madrugada e quando tive coragem, perdi o número. Não quis roubar ninguém pra mim, mesmo sabendo que já eram meus. Eu calei e ainda sim, deixo uma dúzia de saudosos, daquela menina boazinha que sempre consertava o mundo, mas não sabia encaixar suas próprias peças. Eu fiz bem, eu os deixei bem, mas os deixei e é isso que incomoda. E agora, dou uma de Brás Cubas e venho escrever lamentações póstumas. Eu não sei quem vai chorar, não sei quem lembrará de mim e por quanto tempo, mas sei que o epitáfio não é só meu, porque duas dúzias de pessoas estão também arrependidas por tudo que não disseram. Pelo amor que não confessaram, pelo beijo que não me deram, pela paz que não me permitiram oferecer.
Com aquele mesmo sorriso irônico, consigo atravessar a rua, na epifania de quem acabava de sair do jejum de chocolate e viu uma crônica inteira formar-se enquanto um carro passava em alta velocidade pela faixa de pedestre, ainda sim e graças a Deus, longe de atingir-me. Intacta, cheia de vida e ignorando o fato de que morremos um pouco todos os dias. Querendo errar da forma certa. Afinal, essa sempre fui eu, certo?
"Escute, garota, o vento canta uma canção, dessas que uma banda nunca toca sem tesão"
2014 é ano de perder o medo ;)