quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Devia ter errado mais...

Morri. É. Não doeu. Foi rápido e em um segundo meu sangue se esvaía pela rua. “Ela estava na faixa de pedestre”, escutei de algum dos curiosos que se juntavam ao lado do meu corpo. É, eu estava na faixa de pedestre. É o certo. Deste lado tava perto, uma sombra gostosa, mas não. Faixa de pedestre é o lugar certo e cá estou eu, morta! E por alguém que sequer prestou ajuda, mas o que ele poderia fazer? O que eu poderia fazer? Eu fiz o certo. Atravessei num lugar que é meu por direito. E morri. Há quem diga que me viu sorrir, ironicamente, como sempre fiz. A vida inteira tentando acertar, pra morrer, literalmente, acertando. E qual a graça? Nenhuma. Tudo acabou com silêncio, sangue e sorrisos de ironia. E o que mudou? Nada. Morri como vivia
Eu podia ter enchido a cara aquele dia, e bêbada, dito tudo que consumia meu álcool. Eu não precisava cumprimentar alguém por educação, ao invés disso, podia ter abraçado mais os meus. Não precisava perder tempo negando tudo que eu sabia sentir, nem fingir que sentia algo pra ver sorrisos de ilusão. Eu podia ter errado e me divertido com isso. Ligar pra alguém na madrugada só pra dizer: “Eu quase amei você”, ou quem sabe: “Você não soube me amar”, naquele tom melódico do Rei Roberto Carlos. Podia ter dito ao gato com namorada que ele combinava muito mais comigo e que ele também sabia disso. Quem sabe, dizer a namorada de um outro rapaz que ela era gata demais pra ele. Ou dizer ao cara: "Você é o homem certo pra mim." Eu podia ter falado tudo que queria, as consequências acabariam junto comigo e as pessoas sentiriam saudade da sinceridade amarga que eu trazia comigo. 
Mas não, eu calei. Sempre calei. Nos dias que estive bêbada, desliguei o celular e deixei que o álcool consumisse só a mim. Sempre usei a política da boa vizinhança e sorria para os que me apunhalavam as costas. Nunca iludi ninguém, que não eu... Me convencendo a sentir o conveniente e ignorando o óbvio, o inevitável. Não fiz ligações na madrugada e quando tive coragem, perdi o número. Não quis roubar ninguém pra mim, mesmo sabendo que já eram meus. Eu calei e ainda sim, deixo uma dúzia de saudosos, daquela menina boazinha que sempre consertava o mundo, mas não sabia encaixar suas próprias peças. Eu fiz bem, eu os deixei bem, mas os deixei e é isso que incomoda. E agora, dou uma de Brás Cubas e venho escrever lamentações póstumas. Eu não sei quem vai chorar, não sei quem lembrará de mim e por quanto tempo, mas sei que o epitáfio não é só meu, porque duas dúzias de pessoas estão também arrependidas por tudo que não disseram. Pelo amor que não confessaram, pelo beijo que não me deram, pela paz que não me permitiram oferecer.
Com aquele mesmo sorriso irônico, consigo atravessar a rua, na epifania de quem acabava de sair do jejum de chocolate e viu uma crônica inteira formar-se enquanto um carro passava em alta velocidade pela faixa de pedestre, ainda sim e graças a Deus, longe de atingir-me. Intacta, cheia de vida e ignorando o fato de que morremos um pouco todos os dias. Querendo errar da forma certa. Afinal, essa sempre fui eu, certo?

"Escute, garota, o vento canta uma canção, dessas que uma banda nunca toca sem tesão"
2014 é ano de perder o medo ;)

domingo, 19 de janeiro de 2014

... Que a hora certa vai chegar

Meu silêncio rasgou-me inteira. “Devo ter esquecido o bom senso” - pensei. E esqueci mesmo... Permiti que muito se perdesse à procura da hora certa, ainda que eu saiba que ela sempre chega, ainda que eu entenda, que na prática, ela não existe... ela se torna, ela se faz. Resisti aos textos formando-se sozinhos, pedindo como em prece pra serem transcritos- pedindo apenas isso. Estavam prontos, como as lágrimas de alívio que me molharam a face. Estavam prontos, como nós estamos e sequer sabemos. Estavam prontos como eu e você, caro leitor, que insistimos todos os dias pra desfazer-nos e sabe Deus o porquê. E só Ele sabe também o motivo de haver beleza nisso.
Fui engolida pelo ano que passou e permiti que o final dele calasse até a minha mente, sem reflexões, sem análise do que foi ganho, sem perspectivas pro ano que chegava. Eu queria tudo. Eu não queria mais nada. E ainda sim, muito veio ao meu encontro. Calada, vi muito ir embora – mais uma vez. Eu sei que há hora de volta. Calada, deixei que chegassem. Eu sei que há hora de ir. Calada vi tudo me acontecer sem intervir. “É hora de viver o que me atinge”, constatei. E fui deveras atingida, jogada ao chão, sacudida, me reergui, mas não sei a direção e todo dia é dia de descobri-la. E todo dia, arrisco uma nova possibilidade. Já voltei, já parei, já segui. Ora, não é sempre assim? 
Tenho me queimado nessa maré de correr riscos. Tenho me afogado nessa chama de “ser agora”. É humano, por isso assustador. É divino, por isso misterioso. Há trabalho além de mim, há futuro além do que eu espero. Há além e por enquanto, eu luto por esquecê-lo. Ainda que ele me grite nas manhãs mais quentes, ainda que ele adormeça em braços que não são meus. Por um dia, ou uma vida inteira, o que chega até nós, merece ser vivido. Hoje, eu pus fim em uma das minhas tantas saudades, de olhos fechados, ouvindo as teclas do computador... Calando meu receio, confessando meu silêncio, fazendo-me em vocês, caros leitores. Refazendo nosso elo nunca desfeito, iniciando 2014 – finalmente. E que ele venha até nós e como tal, seja nosso!

"Tinha a força de quem sabe que a hora certa vai chegar... ♪"
Força, apenas força.