quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A luta é agora!

Pôr do sol É o terceiro que me distrai. LuaJá é a terceira que me encanta. Reconheço, me esforcei... Amordacei minha revolta, engessei os dedos, mas não me contive! Distração ou encanto não foram suficientes para evitar desabafos. BASTA! Eu não vou mais engolir o que as minhas enzimas não digerem. Vou evitar intoxicações, parei de ingerir veneno! Ele não me mata (Pena, né?), mas me causa leve indigestão e não mais o farão. BASTA! 
Noite anterior. Eu estou sufocada. (Alguém aqui lembra que eu tenho pavor à multidões?). Eu vejo cartazes, muitos! Eu vejo pedidos, mas pedidos mudos! E eu tento ajudá-los. Eu grito, sacudo aqueles corpos apáticos e eles continuam mudos, inertes e sufocando-me. Acordei do pesadelo. Mas ora, que pesadelo? É exatamente isso que tem acontecido. O Brasil parado... voltando a caminhar aos trancos e barrancos, engolido por um sistema carregado de interesses. Professores abandonados ao descaso e desvalorização e pior, sendo postos na berlinda pelos próprios estudantes. Ao menos do pesadelo, eu posso acordar! 
Mais de cem dias de paralisação. Sim, a greve que pouca gente ouvia falar chegou até aqui. “Mas apressem-se professores, o dia 31 está aí, o orçamento para o ano que vem tem que ser fechado, além do mais, não estão ME vendo? Não estão percebendo o absurdo que fazem ME deixando três meses sem aulas e com todas as MINHAS férias posteriores comprometidas? Como podem atrasar MEU curso? Como podem adiar a MINHA formação? Reconheço a legitimidade da greve, mas também tenho que pensar um pouco em MIM.Legitimidade? Também? Um pouco? Ora, por favor, foi com os meus lindos professores que eu descobri o significado de ‘hipocrisia’ e ‘contradição’, mas quem me deu o exemplo foram vocês.  Muito obrigada, nobres universitários
Cara, desatem suas vendas! Vocês estão fazendo barulho (e isso é bom), mas para o lado errado! O governo, este sim, caros estudantes, deve ser incomodado com o som das suas vozes ou com mais o que quer que seja. É este que tem ignorado os teus anseios por educação, é ele quem tem te deixando nadando no ócio, é ele quem tem atrasado teu curso e tua formação. E você desconta isso em quem? Nas pessoas que estão lutando por uma educação digna? Lutando pra te dá melhores condições de construir – com eles e com o auxílio deles – o conhecimento? E mesmo que não reconheça como válido tais argumentos, tá descontando num trabalhador que está fazendo valer seu direito à greve? Aliás, que está fazendo valer seu direito enquanto trabalhador, apenas. E por quê? Por causa dos TEUS prejuízos? Interessante seu senso coletivo! Quero te ouvir dizer isso daqui há uns anos, quando receberes salários injustos, não houver correção, aposentadoria digna e nem – vejam só - uma data base, quando te negarem o direito a voz. Aí eu quero saber quais argumentos você vai usar para justificar sua greve aos supostos prejudicados. E devo ressaltar, tenho ótima memória e farei questão de lembrar dos seus argumentos – hoje - tão plausíveis contra o nosso movimento (Sim, ele também é meu!
Agora, imagine só, caro leitor, andei pensando em largar minhas madeixas negras, por um vermelho vivo, trocar o meu Sertão, pela Veneza Brasileira e a minha medicina por serviço social... Não desmereço nenhuma das minhas segundas opções, afinal, elas sempre foram minhas segundas opções, mas eis que me vejo apegando-me a elas por causa de terceiros, pelo desânimo que inevitavelmente nos alcança em algum momento. Fala sério, paremos por aqui! Vamos socializar nossos sonhos e utopias... porque pra comprá-los já tem gente demais! Sejamos humanos, coletivos! Posso dizer, com absoluta certeza, que eu serei... 
Pois bem, decreto Greve! Isso mesmo, greve! Sem negociação (É moda, não é?). Greve do que e de quem não me acrescenta nada, além de dor de cabeça e vontade de ficar pelo caminho. Sei que será só mais uma,diante de todas as outras deflagradas no país, com uma diferença... essa é minha! Só minha! Não vai prejudicar ninguém, parar rodovias ou jogar jovens sedentos por estudo no ócio. Vai fazer bem para minha pele e meu humorNão é fantástico? Sinto muito pelo alto grau de ironia, mas eu precisei revestir minha revolta. Uma pele áspera coberta por veludo sempre é mais apresentável!
Como já havia dito antes, escrevo o que eu quero fazer eterno. Pois bem, eternizo aqui minha vontade de mudança, não me deixarei corromper e não cederei a este sistema! Peço desculpas se os assuntos aqui estão monótonos, é que vivo rodeada de gente, eu as estudo, eu as analiso, eu as amo. E é por isso que vario entre o social e o amor, o que pra mim é a mesma coisa. Porque sem amor, não há social. 

 Sendo assim, que a greve se pinte de povo e que o povo se pinte de amor!


A Greve é FORTE! A luta é agora!
Podem crucificar, continuo permitindo ;)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

No nosso peito bate um alvo muito fácil.

Eu tenho distúrbio alimentar. É, tenho mesmo! Como muito ou não como nada, não há meio termo... Aliás, essa história de meio termo sempre foi meio dúbia pra mim, digo que não sei ser extremista (Exceto quando o assunto é o Santa Cruz Futebol Clube, óbvio), mas tenho pavor à coisa morna, odeio esse tal de ‘meio termo’. Contraditório? Talvez. Conversa pra outras linhas... Mas voltando... Minha introdução confessa é explicada facilmente, as ideias me invadiram enquanto eu preparava a minha terceira ou quarta refeição da noite (Falo sério, infelizmente!), amanhã deve ser um dia vazio – pelo menos para o meu estômago...ou pra mais de mim
É próximo de meia-noite. Dias atuais. Estou na minha casa, aliás, na casa dos meus pais – que já não é tão minha. Na sala de janta, em frente ao quarto onde os dois dormem abraçados com a TV ligada para distrair seus sonhos. Por mais frequente e corriqueiro que seja encontrá-los assim, eu sempre desenterro um sorriso discreto de satisfação... Um sorriso e alguns sonhos encantados que eu tinha antes de quebrar a cara uma, duas... mil vezes. E aí eu lembro da fé que eu tinha nas pessoas, de quando eu pensava que só existia o bem e o bem. Sinto falta e lembro como foi difícil desacreditar. E repenso nos meus sonhos encantados... Doce ingenuidade
Ano de 2009. Aulas de física. Assunto: Gases. Aquela velha comparação do gás ideal e do real. Reconheço, sempre fiquei chateada por não haverem gases ideais no mundo, gases que atendam lindamente a todas as expectativas atmosféricas. Quem dera fosse restrito a isso. Tenho estereótipos para tudo. Minha vida, amigos, ex e futuro(s) namorado(s). Agora sou crescidinha, já não espero os ‘ideais’. Mas admito, meu coração está sempre querendo ditar caminhos: “Pela esquerda, man! Pela esquerda!’ Ele vive pra gritar isso. Aliás, ele quer rumar o mundo, tem uma estranha mania de achar que sabe muito e se irrita fácil quando não o escutam. Sabe o que é pior? Na maioria das vezes o infeliz está certo!
Ano 2012. Mês não informado. Manhã de brisa leve. Apaixonei - pensei de imediato. Casa comigo? - Pensei dois segundos depois. (Engraçada essa minha mania de pedir às pessoas que eu gosto em casamento, isso lá é prêmio decente?). Semelhança tão grande que chegava a ser estúpida. Afinidade. Expectativas. Decepção. Mas ora essa, óbvio não? Eu o crieieu, minha imaginação fértil e o meus sonhos encantados. E acabei não o enxergando de fato. E ele era lindohoje eu sei. Penso em fazê-lo um convite um dia, um café – ou um vinho. Disposição para conhecê-lo sem a minha interferência. Mas confesso que é quase impossível ignorar os gritos do meu coração metido a sábio, e por ele, eu chegaria a este encontro dizendo: ‘Não insulte a minha inteligência. Sua liberdade é o seu escudo. Não fuja, se assuma, me assuma! Me ame...’. Alguém duvida que este ser humano jamais voltaria pra café ou vinho? E com toda razão, vale ressaltar... 
Uma hora da manhã. Dias atuais. Estou aqui a analisar-me... Tenho um defeito (Um? Até eu ri)...Eu sempre espero muito. De mim, das pessoas, de tudo. Ensinaram-me a ser assim! Como? Esperando muito de mim... Muitas vezes fui até o máximo. Sangue, suor e lágrimas – até a última gota. E não foram raras as vezes que não me dei por satisfeita - mesmo quando não havia mais o que ser extraído, e continuei, e desabei, e reergui... e ninguém estava aqui, ninguém percebeu. Sabe por quê? Porque sempre me pegavam com um sorriso discreto de satisfação em frente ao quarto dos meus pais, revivendo meus sonhos encantados e reativando a minha fé nas pessoas. E eu os culpo, sabe? Sim, os culpo... Por toda às minhas decepções nesse ramo infame de vida amorosa. E por quê? Porque eles se amam. Porque são a minha prova cotidiana de que o amor existe e os olhando eu não consigo duvidar disso. E aí, eu volto a acreditar nessa coisa de vida a dois, filhos e casinha no campo. E acredito que ainda que eu cometa a loucura de concordar com meu inconveniente coração, eu não precisarei dizer nada para o ser humano do café ou vinho. Ele perceberá por si só e será a parte encantada dos meus sonhos. (ô, olha só! Num é bonito? Desculpa, eu tive que ser irônica pra quebrar a melancolia!) 
Duas horas da manhã. Dias atuais. Meu coração grita, sussurra, canta e arrisca-se até a dançar. Está inquieto. Radiante - e já adianta... meu estômago será a única coisa vazia por aqui!. Fico tentando traduzi-lo... Ele grita para que eu me cuide e sussurra pra que eu cuide dele. Zomba dos meus ciúmes, mas pede que eu não me assuste. Confessa que há mais gente com medo de dependência. Ele canta o amor. Ele descreve o desejo. Ele pede que só por hoje eu o escute e acredite nele. Pois bem coração, sou toda à ouvidos (por hoje e por todo sempre)...

"Porque eu sou feita pro amor da cabeça aos pés e não faço outra coisa do que me doar ♪"

sábado, 25 de agosto de 2012

Prazer. Sem motivos, nem objetivos!

Um gole de café. Chuva, o chiado persistente da televisão. Caneta e caderno velho. Pronto, o mundo despenca em forma de palavras, na forma de sentidos dúbios e confusões de quem ainda não se conhece por inteiro. Outro gole de café. O gosto do reencontro. Eu e minha sombra, eu e o meu passado. A caneta flui fácil, mancha o papel com o que eu tenho aqui dentro, nos lugares mais escuros, nos lugares que ninguém – além de mim – chegou. E nessa hora penso ser só meu, engano-me achando que eu serei a única entender a junção de todos esses conflitos, mas aí, pouco depois, descubro que dei vida ao sentimento de uma dúzia de pessoas, que por motivos diversos não o expressam. 
Eu paro. Sem café desta vez. Indago. Como não expressar-se? Como amontoar tudo como se o espaço fosse infinito? Já me escondi sim, já amordacei sentimentos que insistiam em gritar madrugada adentro, já os alimentei com falsas esperanças pra que se contivessem - ao menos perto de quem não podia ouvi-los (que na maioria das vezes, era justamente a única pessoa à quem eles interessavam). Mas sempre os escrevi, revestidos de sarcasmo, protegidos pela ironia. Mas estavam ali e a quem interessavam ou pra quem se interessava, eles eram nítidos, desnudos, claros. Estavam ali... Não imagino estocando tudo aquilo, meu corpo não suportaria e eu não queria está perto pra ver essa explosão. Seria uma chuva de sentimentos ácidos e fora da validade, declarações acompanhadas de adjetivos nada carinhosos. Talvez um: ‘Eu te quis tanto, que eu nem me quero mais, idiota!’. Nada eficaz, reconheço... 
Reencontro... Já descrevi muitos deles, chuva fina em fim de tarde, sol escaldante em pleno meio dia, parece que eu os vejo, os vivo de novo. Sinto minha felicidade ou agonia – e foi pra isso que eu os escrevi, pra que fossem eternos. Suspiro. Desligo a televisão. Hora de encontrar-me. Devo dizer, faço isso com um sorriso orgulhoso. Gosto de mim, sério... gosto mesmo. Eu previ esse encontro e o registrei aqui mesmo nesse blog, mas eu imaginava resgatando-me de uma sala esquecida. E vejam só, encontrei-me no salão de festas, curtindo a liberdade que o vento me trazia. Mais que tudo, livre! Não sabia eu que tinha sido sufocada pelas expectativas – as minhas e de todos os outros que sempre me viram como um confortável ponto de apoio ou referência. E foi só me desfazer delas que eu me vi, me apaixonei, me vivi
E cá estou eu, caro leitor, sendo eu mesma. E o melhor, um ‘eu’ sem drama, sem aquele ar pesado de ser vítima, sem expectativas... e cheia, saturada, transbordando em sonhos e em vontade. Vontade de fazer, de refazer, de se fazer. Vontade de escrever sobre o que eu sinto, com a consciência de está escrevendo por mais alguém. Vontade de falar dos amores que eu chorei e perdi, dos que eu perdi sem ter chorado e daqueles em que eu chorei, mas ainda sim não perdi. Vontade de não me conter pra não parecer precipitada, aqui eu vou gritar a minha paixão e a minha dor... Provavelmente falarei de você, dele, de nós. Falarei e a carapuça há de servir e espero que assim como eu, ninguém se contenha. Ninguém mais se esconda
 Mais um gole de café, dois suspiros e um sorriso. Dessa vez, é isso!

Reconheço que essa postagem deveria inaugurar o blog, mas minha inspiração não respeita cronologia. Aliás, não respeita coisa alguma...

Eu mudei, cara! Mudei muito. Vocês podem perceber, fácil!  Confira aqui a postagem que o texto faz referência e acreditem, o assunto é quase o mesmo ;) [Mas por favor, não entrem em depressão, rs]

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Sorrisos.

Assentamento MST. Sol forte. Um certo alguém falava sem pausa pra respirar e eu me perguntava como conseguia. (Ora essa, como se eu mesma não fizesse isso sempre). O assunto era interessantíssimo, mas eu tava entretida demais com aquele céu - ora azul, ora de um cinza pesado, partido por um arco-íris com cara de esperança. Andara cansada, quisera desistir, mas estava ali. Mal tinha chegado e já havia derramado algumas poucas lágrimas, um senhor que nunca havia me visto, falou dos seus filhos e sem saber contou a minha história. Naquela hora, embora estivesse rodeada de crianças (o que sempre me traz uma paz incrível), eu quis me transportar pra casa, abraçar meus pais e agradecer – só agradecer
E estou eu, perdida nos meus devaneios (como sempre), balançando a cabeça e parecendo concordar com tudo que estava sendo dito. E eu sei que concordava - embora não tivesse escutando - conhecia o suficiente pra saber que estavam expondo a minha opinião com um grau a mais de extremismo e dois graus a mais de conhecimento... Homem. Negro. Uma bolsa que até hoje não se sabe o que carregava, roupas sujas. Ele riu. Eu saí de mim e voltei pra terra, retribui o sorriso. Ele me estendeu a mão, apresentou-se de maneira apressada. Nome, sobrenome, naturalidade e mais alguma coisa que eu, embora tenha me esforçado, não entendi. Ele continuou sorrindo e foi embora. E eu voltei ‘praqui’ pra dentro, agora com um motivo a mais, com um sorriso e um conhecido a mais
Homem, moreno, companheiro de vivência. Aproxima-se, toca o meu ombro e só depois de alguns minutos eu percebo que estava falando comigo. Apresso-me pra acompanhar a conversa e não ter que dizer: ‘desculpa, repete por favor?’, até porque provavelmente eu estava balançando a cabeça positivamente como quem está entendendo e concordando com tudo (Sabe aquela de ‘sorria e acene’?)! Ele estava me dizendo que tinha ficado de olho, que aquela simpática pessoa de nome pouco comum (lelêu), era um desconhecido pra vizinhança e que provavelmente tinha participado de um assalto na cidade vizinha no dia anterior. Todos param. Me olham assustados. E eu, continuei lá, olhando pra meio mundo de pessoas espantadas. Devo ter soltado no máximo um: “hum...”. 
Não consegui mais ficar a sós comigo – não pelos próximos minutos. “O que ele disse? o que ele fez? Como foi isso?” Cara, eu apertei a mão de um cidadão que me deu um sorriso. Algo a mais? Não pra mim. Devo confessar que ainda me fez bem, dentre aquela multidão de estudantes interessados na história do MST (me incluo nisso, por favor), ele sorriu pra mim, parece que estava lendo minhas reflexões sobre o céu cinza e o arco-íris da esperança. Me fez ainda melhor ele não ter se importado com quem eu sou, de onde eu vim, nem o que eu faço. Porque haveria eu de me importar? (Eu não vou perder minha cautela por isso, certo? Ainda sigo os conselhos da minha mãe e não saio falando com estranhos pelo mundo – até saio. Mas enfim...) 
Petrolina. Ano de 2010. Noite. Mulher, branca, bem vestida, simpática – bem simpática. Devo confessar, nessa época eu me continha e ao menos num ambiente sociável conseguia ater-me a conversa e deixava os devaneios para a madrugada, o frio e o meu fiel escudeiro (caderno ou notebook). A conversa tava um tanto tediosa, mas as companhias eram boas... Então, o que você faz? (Até hoje eu odeio essa pergunta). – Faculdade, respondi. (Como se não soubesse a pergunta que se segue). Que curso? – Medicina (Nunca pensei que eu tivesse vergonha de dizer em outras palavras: ‘pois é, realizei meu sonho’). A velha pausa dramática, a expressão de espanto com um sorriso intruso (me sinto um ET nessas horas e falo sério), os adjetivos que exaltam a inteligência anormal que eu não possuo. E aí, a velha expressão de desentendida (de sem jeito mesmo) e as tentativas inúteis de desviar o foco da conversa. Pronto, na cabeça desta senhora feliz (e de algumas outras pessoas), há status. Eu fico rindo e me pergunto o que ela pensaria se me conhecesse dançando ciranda, levantando poeira com pessoas lindas e alternativas. Ela diria que eu era uma estudante de medicina? A comida preparada para mim teria o mesmo sabor? Aliás, haveria comida? haveria convite? 
Palmares. Dias atuais. Janela aberta, chuva fina. Cá estou eu, comparando sorrisos e situações. Um possível assaltante e uma senhora de classe média alta (ou só alta, vai saber). Ainda acho que o primeiro enxergou mais de mim em dois segundos do que a mulher bonita em 3 horas de conversa. E ninguém ficou de olho nela e ninguém veio me perguntar o que ela havia dito. O que ela diria se eu dissesse que dormi em assentamentos do MST, que tenho o sonho de trabalhar nos hospitais públicos e não na confortável clínica do irmão dela? O que ela diria se eu falasse que conheci pessoas sem ensino médio e que sabem tanto sobre tanta coisa, que perto deles eu não me atrevo a abrir a boca - eu só os escuto. O que ela diria se eu falasse que preferi o sorriso daquele homem negro de nome pouco comum, do que os bilhões de sorrisos despreocupados que recebi dela no meio da noite? O que ela diria se eu dissesse que não é ela à quem eu quero servir?
Imaginem então, se ela descobrisse que eu não estou preocupada com o que ela diria? Que a mídia já me diz isso todos os dias e que eu me perco nas minhas músicas pra não escutá-la? Imaginem se ela me visse querendo ouvir os que silenciam ou são silenciados? Imaginem só... 
 Fim de texto. Calor confortável no coração. Esperança. E um – apenas um – sorriso em mente. (Imaginem se ela souber que não é o dela? rs

 (Este é mesmo o céu e o arco-íris em questão)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Quase sempre tou em paz.

É que tem é tempo que alguém me disse, que como cidadão, todos temos o direito de ir e vir, em tempos de paz – por favor (Devo dizer que sempre achei hipócrita, ‘paz’ caracterizar ausência de guerras). Mas alguém pode me dizer, de que isto – a que chamam de direito – serve quando não se sabe de onde veio, muito menos pra onde vai? Se a pessoa é incapaz de reconhecer-se como cidadão, de reconhecer-se como alguém que pode e deve ter mais que um pedaço de papelão na porta de algum ponto comercial fechado pelo avançar da hora? E ainda me falam de direitos...

Eu me embriago com as boas companhias, dentro do meu confortável bolero que me protege do frio. No rosto, nada mais que um pó pra esconder as velhas olheiras de quem não costuma dormir quando precisa. Enquanto isso, ao meu lado, ela - com o rosto pintado de muitas cores diferentes, embriaga-se com a ausência da lucidez, com os devaneios de quem não se reconhece como ser pensante, digno da capacidade de se fazer mundo, devaneios de quem não se reconhece. Sem mais. 
Tão humana quanto eu, cérebro desenvolvido, polegar opositor (direitos autorais: Ilha das flores), um ser racional. Mas ora essa, quem se reconhece quanto ‘homem’, se não há sociedade? Se a marginal sempre foi o seu ‘habitat’ e ninguém nunca parou pra demonstrar afeto ou ao menos interesse? Quem se reconhece, se nunca pôde olhar pra si?

Eu continuei tomando minha cerveja, ela me olhava curiosa. A música tava boa e eu, parada? Fora de contexto. Ela dançava, ela ria e achava o máximo quando eu abraçava ou beijava meu garoto... Por vezes ameaçou aplaudir e eu, constrangida com meu conforto, desviava os olhos marejados. Eu fazia parte dos sonhos dela, porque ainda que não se tenha ideais, há sonhos. E eu, daquele ponto de vista, era uma princesa vestida de modo pouco tradicional, que não dançava porque os sapatinhos apertavam-me os pés, mas que tinha um príncipe, cuja carruagem está escondida só esperando por nós. E o que eu tomava não importa, eu não precisaria de mais nada pra viver. 
Mas ela precisa, de muito mais. E eu também sonhei. Ela era uma princesa, que tinha direito a casa, comida, educação, saúde e segurança. Nada de margens, era um ser social, que tinha boas conversas comigo à respeito da família que acabara de construir. Que tinha fome de intelecto e oportunidade de saciá-la. Que teve um caminho que a guiou das margens, para sociedade. E eu fui um pedaço deste caminho. Cara, eu sonhei...

E eu, que um dia deixei claro a preferência pela solidão, me deixei ser tomada pela vergonha. Eu não estou só se eu tenho a mim, aos meus objetivos, à toda uma sociedade que de certa forma, me olha, me nota e de vez em quando até me parabeniza. Dessa forma fica fácil, a solidão sequer é opção...

 Eu não estou só, se aos olhos daquela mulher, eu sou ‘a garota dele’. Mas e ela, quem tem? E ela, quem é?

"No novo tempo, apesar dos perigos. Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta pra sobreviver ♪"

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Tudo pela metade.

Eu gostei dos seus óculos, você do meu sotaque. Eu quis perguntar ‘onde vende?’, você ‘de onde é?’. Mas aí, eu gostei do seu sorriso, você, do jeito nervoso com que mecho no cabelo... E num meio desses sorrisos, desses óculos, cabelos e sotaque, nós nos gostamos. Consumimos nosso tempo, consumimos nossa chama. Sem pressa, sem passado, sem passo. Eu conheci teus tons, principalmente os baixinhos ao pé d’ouvido, me chamando pra ser tua, se fazendo meu. Eu adorava teus olhares, mesmo aquele que me gritava por ciúmes, principalmente aquele que ia sumindo vagarosamente - até fechar-se por completo, de quando eu me aninhava em teus braços. E eu fui indo, invadindo tua estrada, fazendo teu caminho... Até chegar ali. Era escuro, sórdido, aparentemente inabitável. Mas alguém já havia estado ali e não me parece ter saído de maneira amigável. Improdutivo, deserto e estranhamente convidativo. Uma tarde, uma única tarde, foi o tempo em que consegui ficar. Estávamos à beira do mar, sendo só nós, ‘de nós’ e eu estive ali. Pena você ter percebido... Abriu a porta e com um sorriso desconcertado me deixou claro: Aquele era teu lugar, só teu. Eu quis ficar, já quis voltar, mas sem sucesso. Eu tinha chegado ao nosso limite. Sem avanços, alguns retrocessos, mas progressão não mais. Nunca mais
Eu já tive salas vazias dentro de mim, eu te entendo. Hoje estão abertas, bem aconchegantes, seus sapatos ocupam o chão, seu perfume o teto, nas paredes nossos resquícios de suor, de perfume, de vida... É nosso, tem ar e tem cor e eu poderia tornar o teu quarto escuro tão bonito quanto, mas não... É proibido pra mim, aliás, até pra você. Não sei quem saiu de lá, mas sei quem ficou. Teu medo é sensato, mas pra que diabos você quer sensatez? Eu gostei do teu óculos, você do meu sotaque. Volto a perguntar, pra que sensatez? E você ri, como sempre ri. Diz ser – momentaneamente – inteiramente meu, mas isso eu já sei. A tua parte que não é minha, também não te pertence... é ou foi de um alguém que não quer ou não pode voltar - e eu já não sei se devo ficar feliz com isso. 
E sempre que somos só nós, te vejo recuar, esconder-se entre os meus cabelos, meus sentidos. Esconde-se em mim pra que eu não o veja. Cara, isso é sério? Com tanta coisa ruim no mundo, você se protege de mim? Eu sou teu veneno e teu remédio e a cada dia que passa, você fica mais confuso, sem saber como livrar-se, se quer ou se tem que livrar-se. Eu te chamo, eu te amo, eu te quero, mas por inteiro, sem salas vazias trancafiadas por fantasmas que eu – sinceramente – não quero conhecer. 
Enquanto isso a chama finda, enquanto você não se decide, ela acaba, me acaba, ‘dá cabo de nós’. Enquanto você está brincando de: ‘quem eu devo ser?’, eu perco o sonho de quem seríamos se fossemos doiscompletos e plenos. Enquanto você oscila entre o piano e o bar, eu tomo o vinho e a nossa música passa sem nós. 
 Vem, apareça, seja. Ainda tempo, ainda é tempo! 

 É um direito teu evitar a dor, caro leitor! Mas que fique claro, evitando-a, você evita todo resto!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Centro

Luzes das mais variadas, focos dos mais diversos e eu aqui, com um bloco de anotação mental e a caneta de tinta fresca. Ninguém me nota e eu me esforço para tal. Preciso da observação imparcial, o olhar nada crítico da manipulação. Estou no centro do salão e eles todos esbarram em mim com o pesar de suas vidas e eu? Bom, eu escrevo.
Canto esquerdo, direção norte. A menina presa às rédeas de alguém que não viveu. Ela não ousa – nem pode, cruza as pernas de forma nervosa com o intuito de distrair alguém já acompanhado. O riso é comedido, os sonhos limitados ao travesseiro. Não sabe pra onde olhar, mas sabe bem pra onde queria está olhando. Move-se ao som da música que não escuta, dança no compasso de quem nunca teve ritmo.         
Direção Sul, canto esquerdo. Jovem casal. Planos estampados no sorriso, fé guardada nas mãos – discretamente - entrelaçadas. Eram felizes em baixo tom, pra que ninguém os escutasse, pra que ninguém os visse. Eram homens - Jovens, bem sucedidos e homossexuais. Neste baile de convenções, eles eram a maior e mais linda contradição.
Canto direito, direção sul. Rapaz... 22, talvez 23 anos. Parece-me sufocado pela gravata borboleta que não queria está usando, o olhar fixo ao casal à sua frente. Um ar arrependido de quem sabe que poderia fazê-la feliz, mas de quem não ousou, por medo de sentir, por medo de ser ou de ‘si’.
Direção Norte, canto direito. Casal de namorados. Ela mantém os olhos fechados, sente-se protegida e menos constrangida com o olhar nervoso do rapaz de gravata borboleta. Acomodada em sua ilusão, é incapaz de perceber o sorriso nada discreto que seu par exibe enquanto olha pras pernas da menina a quem primeiro descrevi. Nos olhos, a marca – já próxima - da solidão que ele ainda não percebera.
Centro do salão. Eu, minha mente e exaustão. Pensando quantas vezes eu já fui – aos olhos alheios - um desses estereótipos, a menina comedida tentando seduzir o garanhão comprometido, a homossexual, a garota arrependida por perder ou por ter alguém. E enfim entendendo o quanto é leve está aqui, na cadeira, escrevendo e julgando outros corpos, mentes e sorrisos.
Eu me perdi, me misturei a multidão, tentando – inutilmente – passar despercebida. Me soltei da hora e dos sonhos e ainda que trancafiada em mim, estou rumando a um encontro. Só meu, só eu. Talvez a gente se encontre, talvez eu me encontre. Talvez, caro leitor, o que eu mais queira seja continuar perdida.

 Por fim, retiro-me. A cadeira fica vazia, haverá outros clichês sedentos em ocupá-la.

"Um dia desses, num desses encontros casuais. Talvez eu diga: 
- Minha amiga, pra ser sincero, prazer em vê-la! Até mais... ♪"


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O invisível nos salta aos olhos.

Foi então que naquela brisa leve de despedida, eu a vi... Sozinha, um tanto impaciente, com um sorriso discreto que me prendeu o olho e a alma. Os cabelos estavam despenteados pela vida e os olhos manchados de alegria, ela tinha a cor da liberdade. Eu quis chegar mais perto e num movimento tão sutil como o meu, ela também aproximou-se, eu abri um sorriso... de maneira idêntica, o sorriso lhe tomou a face. E neste instante, minha cabeça - em alta rotação - fez um breve resumo dos meus 20 outonos vividos por terceiros, das diferentes caligrafias que construíram a minha história com uma carta de autonomia assinada por mim - uma analfabeta funcional em autoestima... Aquela imagem que havia me encantado era minha, os cabelos despenteados eram os meus, a cor da liberdade reluzia da minha pele e eu fui incapaz de reconhecer o meu reflexo... Até hoje! Enfim eu me dei conta que nunca fui inconstante e que tudo aquilo era só conflito entre vontade e ignorância. É hora de me ver, despida... Sejam noventa e sete, noventa e oito, cem ou sem passos. A hora é minha!
 
"Era o princípio num precipício, era o meu corpo que caía ♪"