Pôr do sol – É o terceiro que me distrai. Lua – Já é a terceira que me encanta. Reconheço, me esforcei... Amordacei minha revolta, engessei os dedos, mas não me contive! Distração ou encanto não foram suficientes para evitar desabafos. BASTA! Eu não vou mais engolir o que as minhas enzimas não digerem. Vou evitar intoxicações, parei de ingerir veneno! Ele não me mata (Pena, né?), mas me causa leve indigestão e não mais o farão. BASTA!
Noite anterior. Eu estou sufocada. (Alguém aqui lembra que eu tenho pavor à multidões?). Eu vejo cartazes, muitos! Eu vejo pedidos, mas pedidos mudos! E eu tento ajudá-los. Eu grito, sacudo aqueles corpos apáticos e eles continuam mudos, inertes e sufocando-me. Acordei do pesadelo. Mas ora, que pesadelo? É exatamente isso que tem acontecido. O Brasil parado... voltando a caminhar aos trancos e barrancos, engolido por um sistema carregado de interesses. Professores abandonados ao descaso e desvalorização e pior, sendo postos na berlinda pelos próprios estudantes. Ao menos do pesadelo, eu posso acordar!
Mais de cem dias de paralisação. Sim, a greve que pouca gente ouvia falar chegou até aqui. “Mas apressem-se professores, o dia 31 está aí, o orçamento para o ano que vem tem que ser fechado, além do mais, não estão ME vendo? Não estão percebendo o absurdo que fazem ME deixando três meses sem aulas e com todas as MINHAS férias posteriores comprometidas? Como podem atrasar MEU curso? Como podem adiar a MINHA formação? Reconheço a legitimidade da greve, mas também tenho que pensar um pouco em MIM.” Legitimidade? Também? Um pouco? Ora, por favor, foi com os meus lindos professores que eu descobri o significado de ‘hipocrisia’ e ‘contradição’, mas quem me deu o exemplo foram vocês. Muito obrigada, nobres universitários!
Cara, desatem suas vendas! Vocês estão fazendo barulho (e isso é bom), mas para o lado errado! O governo, este sim, caros estudantes, deve ser incomodado com o som das suas vozes ou com mais o que quer que seja. É este que tem ignorado os teus anseios por educação, é ele quem tem te deixando nadando no ócio, é ele quem tem atrasado teu curso e tua formação. E você desconta isso em quem? Nas pessoas que estão lutando por uma educação digna? Lutando pra te dá melhores condições de construir – com eles e com o auxílio deles – o conhecimento? E mesmo que não reconheça como válido tais argumentos, tá descontando num trabalhador que está fazendo valer seu direito à greve? Aliás, que está fazendo valer seu direito enquanto trabalhador, apenas. E por quê? Por causa dos TEUS prejuízos? Interessante seu senso coletivo! Quero te ouvir dizer isso daqui há uns anos, quando receberes salários injustos, não houver correção, aposentadoria digna e nem – vejam só - uma data base, quando te negarem o direito a voz. Aí eu quero saber quais argumentos você vai usar para justificar sua greve aos supostos prejudicados. E devo ressaltar, tenho ótima memória e farei questão de lembrar dos seus argumentos – hoje - tão plausíveis contra o nosso movimento (Sim, ele também é meu!)
Agora, imagine só, caro leitor, andei pensando em largar minhas madeixas negras, por um vermelho vivo, trocar o meu Sertão, pela Veneza Brasileira e a minha medicina por serviço social... Não desmereço nenhuma das minhas segundas opções, afinal, elas sempre foram minhas segundas opções, mas eis que me vejo apegando-me a elas por causa de terceiros, pelo desânimo que inevitavelmente nos alcança em algum momento. Fala sério, paremos por aqui! Vamos socializar nossos sonhos e utopias... porque pra comprá-los já tem gente demais! Sejamos humanos, coletivos! Posso dizer, com absoluta certeza, que eu serei...
Pois bem, decreto Greve! Isso mesmo, greve! Sem negociação (É moda, não é?). Greve do que e de quem não me acrescenta nada, além de dor de cabeça e vontade de ficar pelo caminho. Sei que será só mais uma,diante de todas as outras deflagradas no país, com uma diferença... essa é minha! Só minha! Não vai prejudicar ninguém, parar rodovias ou jogar jovens sedentos por estudo no ócio. Vai fazer bem para minha pele e meu humor – Não é fantástico? Sinto muito pelo alto grau de ironia, mas eu precisei revestir minha revolta. Uma pele áspera coberta por veludo sempre é mais apresentável!
Como já havia dito antes, escrevo o que eu quero fazer eterno. Pois bem, eternizo aqui minha vontade de mudança, não me deixarei corromper e não cederei a este sistema! Peço desculpas se os assuntos aqui estão monótonos, é que vivo rodeada de gente, eu as estudo, eu as analiso, eu as amo. E é por isso que vario entre o social e o amor, o que pra mim é a mesma coisa. Porque sem amor, não há social.
Sendo assim, que a greve se pinte de povo e que o povo se pinte de amor!
A Greve é FORTE! A luta é agora!
Podem crucificar, continuo permitindo ;)