quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O Verbo no infinito.

Pois bem, vocês estão certos, eu estou mesmo apaixonada. E faz tempo. Muito tempo, eu diria. Creio que cerca de 16 anos . A princípio pelo Palmeiras (É, eu já tive um surto anti-regionalista, aos 4 anos de idade. Pura birra. Implicar com meu pai naquela época me parecia divertido), depois ou concomitante pelos livros. E fui crescendo e me apaixonando mais. Descobri o amor que eu iria cultivar pelo Time do Povo, pelo Santa Cruz futebol Clube, que começou tímido e agora extravasa todos os meus poros. Premeditava o amor que eu sentiria pela medicina, que hoje povoa cada fio do meu cabelo preto. E fui aprendendo - de um jeito sofrido - a lidar com o (des)encanto e o (des)apego. Aprendi a moldar as palavras e me descobri na escrita. E sigo, por escolha ou por falta dela, sentindo o que me cabe ou o que me atinge
Eu sou apaixonada pelo ser humano. Mas é humano mesmo, no sentido literal, no mais romântico conceito de ‘humanidade’. E não é de se espantar que seja este o meu ponto mais fraco. Vivo derretendo por seres inteligentes, um tanto sarcásticos, por sorrisos e olhares transparentes e carregados de segundas, terceiras, quartas intenções. A malícia me atrai e a ingenuidade me conquista. O mistério me grita, desvendá-lo me satisfaz (Eu conto até pontos pra mim, sabia?). E esse meu fascínio já teve vários nomes, sobrenomes e endereços. Já foi dança, reencontro, descompasso, sorriso, cura e prece! Já se transformou em amor ou regrediu pra quase nada. Mas foi terno, doce, muito doce!
Eu amo como ama o amor. E nem sempre é tão fácil. Procuro atalhos, ás vezes desvios. Tropeço em mim ,seguro adiante. Atropelo etapas, tenho muita sede ou transbordo. Tenho uma queda nada discreta por pronomes possessivos e adoro chamar qualquer coisa de minha e gosto ainda mais quando elas realmente me pertencem. Odeio o ciúme, mas sinto até pelo que não é meu. Adoro paradoxo, tento o tempo todo unir opostos! Sou apaixonada pela paz que encontro na casa de Deus, ao mesmo tempo, me encanto com pessoas que tem o dom de me tirar o sossego – sério, eu praguejo contra elas, mas as adoro! Gosto de me sentir segura, mas perder o controle também tem um bom sabor. E pronto, sigo variando por extremos!
Sendo assim, reitero, estou mesmo apaixonada. Vocês estão certos desde o início. Todos os dias eu descubro uma paixão nova, esqueço as antigas, tenho recaídas. Entro em desespero, Deus me pede calma, eu peço paciência. E gosto disso – de verdade! Essa sou eu, desde os 04 anos de idade – ou antes, vai saber... Uma coisa é certa, nunca vai haver paixão singular por aqui! Quanto aos seres teoricamente pensantes, no dia que eu sentir – mais uma vez – aquela velha vontade de doar-me, eu o farei. O que for sentido, só interessará a um alguém e ele saberá, através de mim, todas as vírgulas que eu hei de dedicá-lo. Enquanto eu não fizer uma confissão clara e objetiva de sentimento, não se iluda, se ele existir, não é sólido ou não é suficiente! Enquanto só as suposições existirem, é sinal que eu quero continuar sendo só minha! Sem meias palavras desta vez, talvez com meias verdadesvocês não esperavam que eu esquecesse do mistério, esperavam?

"Fiel à sua lei de cada instante. Desassombrado, doido, delirante. Numa paixão de tudo e de si mesmo." (Vinícius de Moraes)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Parabéns, vozinha!

E eu sabia que inevitavelmente esse texto existiria, talvez só mentalmente, perco o prazer da escrita quando a coisa é premeditada. Mas sempre me propus a escrever sentimento, esse não poderia passar – literalmente – em branco. Há um ano, eu estava manchando papéis com dor, rabiscando meus soluços e o meu medo de não ter força, perdida no meio de rostos dóceis e conhecidos, que por mais que tentassem, não me trouxeram nenhum alívio. Você tinha ido e eu não te dei sequer um último beijo na testa, não segurei tua mão quando o medo se igualou a fé (tenho certeza que em momento algum, ele superou o que você tinha de mais forte), não sussurrei no seu ouvido que tudo ficaria bem. Dia 25 de setembro de 2011, tudo que eu mais quis foi voltar no tempo ou pedir que ele parasse, pra que eu também não precisasse me mover. Doía e eu não tinha ideia de como seria dali pra frente e você, vózinha, não ia está aqui pra me dizer
Durante essa semana, eu fiquei imaginando quão mórbido isso seria, se valia mesmo a pena relembrar toda dor. Engano meu, doce engano. Ainda dói não te ver na última cadeira da mesa da cozinha, lembrar de você à cada procissão. Ainda dói saber que jamais verei aqueles olhos inocentes outra vez. Mas não há espaço pra morbidez! A saudade machuca, mas não há ausência! Nenhuma... Você está comigo e em mim! Você está em cada Ave Maria que eu rezo lembrando do seu sorriso devoto, está na felicidade das reuniões em família que sempre foram e continuam sendo por você! Está nos meus sonhos profissionais cada vez que lembro do seu orgulho. Está, principalmente, quando penso nos meus filhos e nos muitos dos seus ensinamentos, que eles indiretamente receberão! 
Sendo assim. Está decidido! Sem ausência, sem tristeza! Com muita saudade e muitas recordações de um tempo que não volta, mas não se esquece. Há um ano, eu não sabia como seria, eu nunca soube lidar com perdas, mas até ali, perdas definitivas só por ter chegado fora do horário. E devo dizer, me perguntei se este não foi o maior problema. Não estive aqui, não consolei os meus e não fui consolada, não a vi adoecer, ter medo, não a vi morrer. E hoje, fico grata! Não tenho imagens do teu sofrimento, da dor que tantos tiveram na hora de te dar adeus, não tenho lembrança alguma do seu corpo dentro de uma caixa de madeira... Eu lembro da tua voz rouca, dos meus sábados ao teu lado, das suas birras e das suas falsas “brigas” cheias de amor com meu pai. Eu lembro da sua fé, dos seus exemplos. Eu lembro de você, sendo você...E isso não há nada que pague! 
É um ano de não ausência. Um ano de saudades. 365 dias que você foi fazer o que sempre fez, olhar por nós, só que agora muito bem acompanhada, acordando sob a janela e os cuidados do nosso Deus. Então me diga, por que, por que tristeza? Por que regrar esse egoísmo? Eu sinto sua falta – demais e ainda desidrato sempre que vejo ou penso nos lugares que inevitavelmente ficarão vazios, na mesa, na missa, na minha formatura e casamento. Mas tenho certeza que você nunca esteve tão bem, tão segura e tão satisfeita... Repousando nos braços de Cristo, coberta com o manto da nossa mãe. Ora, fechos os olhos e largo um sorriso. Isso não dói, isso aquece
Não achei motivos – e nem quero, pra dar a isso aqui um tom meloso ou fúnebre. Eu só estou tornando público um de nossos diálogos, vó! Só estou mostrando que eu não tenho porque falar de morte, quando houve uma vida inteira de amor! Não tenho porque falar em fim, se você está eternizada no coração de cada um de nós. Eu não tenho porque não ficar grata pela felicidade que eu sei que você sente agora! Continue olhando por nós, porque de você, lembramos sempre! Continue sorrindo pra iluminar o caos que se instala nesse mundo. Continua aqui, comigo, em mim! Você não acreditou que eu te deixaria mesmo ir embora, acreditou?


Eu te amo, vozinha! Parabéns pelo primeiro ano ao lado do teu, do nosso Deus!

"Não, eu não vou perder a fé, nem desistir. Foi você que me ensinou antes de ir, vou vivendo assim, conhecendo o coração que você fez pulsar em mim ♪"

Quem se interessar, pode conferir aqui o texto feito há um ano atrás...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Vem comigo, sem medo!

"E quando o nó cegar, deixa desatar em nós"
(O Teatro Mágico)


Então, eu já te disse que tenho claustrofobia ou algo parecido com isso? Bom, o fato é que multidões e lugares pequenos e fechados me causam pânico. Me desespera não ter como me mover, não ter como sair, me parece que o ar vai acabar a qualquer instante e eu vou agonizar até morrer. Trágico? Um pouco. Tem mais de futurismo do que de tragédia nessa coisa toda. Mas não é irônico e digo, um tanto ridículo, saber que eu vivo me espremendo em lugares fechados, pequenos, escuros, mórbidos só pra ver/ter um pouco mais de você? Tentando imprensar-me nas frestas que você, por mero descuido (ou não), deixa aberta? E eu padeço à ideia de ficar longe. Não me movo, não vejo saída e o ar acaba mesmo – todo instante. Mas eu não desisto, porque há alguma coisa nesse seu sorriso que sussurra pra que eu não me vá, um olhar inocente de quem tem culpa, de quem deixou a janela aberta propositalmente, porque sabia que eu estaria ali e que entraria correndo, sem pensar uma única vez, quando você precisasse. Elevador, nem pensar. Mas ‘elevar a dor', o tempo inteiro! (Grata pelo trocadilho, Ana Carolina!) 
Mas me ensinaram a ser educada, moço! E embora eu esteja na janela, na porta entreaberta, atrás das cortinas, consertando pela milésima vez o seu maldito foco, eu não vou passar disso! Não sem um convite e um lugar confortável me esperando, não aceito menos que a sua cama e o seu coração, certo? Apesar de me submeter a certas condições, eu ainda sei o valor que possuo, não aceito menos do que mereço! Só não chora, não me olha assim, só não me mostra - sem dizer - que precisa de mim... Porque isso não vai me fazer invadir o seu abrigo, mas vai despedaçar o que já não está inteiro. E eu vou começar a escolher a plateia, os personagens, retocar tua maquiagem e preparar teu texto! Você vai brilhar, sei disso – já fiz isso antes. E vai emborajá vi isso antes. E lá na frente, vai perceber que não sabe improvisar e vai voltar... escancarar portas, janelas e cortinas e não vai me encontrar! É uma pena, porque eu estou aqui agora e todo público já percebeu, mas você insiste em só olhar pra o que o foco dessa peça sem graça te mostra. Eu estive aqui, mas quis, o tempo inteiro, estar aí! 
E te digo mais, eu me denuncio vulnerável e sou, mas jamais – ou não mais – dependente. Desintoxicação... Vivo, recordo, me despeço com ar saudoso, apago. De vicioso, só esse ciclo nostálgico! É uma pena que só posso fazer isso pra o que há de material – e é tão pouco, diria, quase nada! Da minha memória e teimosia, nada escapa! E naquela conhecida hora que antecede o sono, as duas me fazem um breve resumo de tudo e me gritam um ‘tic tac’ irritante só pra lembrar que o tempo está esvaindo, que a canção está diminuindo o tom e que já está na hora desse espetáculo todo ter um desfecho. E provavelmente, você vai continuar ignorando a pessoa que tirou do teu caminho às pedras, que te fez confiar em si, mas que admite, não conseguiu te arrancar o medo
Medo. Tenho muitos, das mais variadas formas... Aprendo a lidar com eles todos os dias. Minha claustrofobia é um dos únicos que não enfrento, vai que eu não viva pra contar história? Certo, sem mais tragédia. O fato é que odeio sentir medo, mas me proponho a carregar parte do seu! Vem comigo e eu te mostro que dá pra ser dois, sendo um só. Eu te ensino a ser livre, estando ‘preso’. Eu te provo que o coletivo, nada mais é, que o individual bem trabalhado, transformado em algo maior e mais pleno. Carrego parte do teu receio, da tua aversão, levo comigo mais uma parte de ti, além daquela que já está em mim. Mas não posso fazer tudo. Não vou te convencer a confiar, esta decisão é só sua! Irônico é saber que o teu maior medo consiste justamente nisso, você sabe que pode, e mais, você confia e isso te apavora, a ponto de ter que ignorar a mim e as minhas discretas contribuições na sua vida. Cara, eu oculto sentimento com indiferença, eu sei fazer, sei distinguir, não vai ser útil pra você! E eu falo sabendo que não vai me dá ouvidos, no máximo aquele olhar de lado que eu adoro e que me diz: “Você está certa, mas isso não é vida pra mim”. 
E como todas as outras vezes, vai ser mais fácil fingir que nada disso foi dito. Pois bem, deixe-me ajudá-lo (mais uma vez)! Não há texto, não há sentimento algum... nem meu, nem teu! Não há nada, além do meu eu, vivendo o que me cabe. Não há saudade, nem há uma vontade discreta de ser um pouco mais. Também não há desejo, nem nada pra ser confessado... nem por mim, nem por você! E se você acredita mesmo nisso, o tempo já passou e não há mais porque te escrever. Espero que ainda haja foco e nada mais!


Então, vamos ver por quem eu estou apaixonada dessa vez? rs.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Além do que se vê

E eu falo mesmo de mim ou convenço meia dúzia de pessoas disso. Eu pareço me expormas acreditem, é só impressão! Tenho um calculismo muito bem trabalhado, moldado só para as necessidades. Ora, eu me oculto o tempo inteiro! Escrever já é um meio de fuga, uma cabana iluminada que uso como refúgio. As ideias, palavras, ‘sentidos’, me invadem sem esforço e pelo meu fascínio, me vencem fácil! Mas eu as conduzo e as uso como escudo, estou sempre por trás de tudo! Nas entrelinhas, sou só eu, despida de ironias e contenção. Mas quem as vê? Quem as lê? (in)Felizmente só quem conhece cada vírgula antes que sejam escritas. Não parece útil, mas é... Eu sei que é! 
E é nessa de esconder-se que às vezes me perco, é nessa de esconder-se que às vezes perco alguém. E perco mais um pouco. Mas já é tão meu, que acostumei! Acredito que quem vale a pena, sempre dá um jeito de me encontrar, de me dá uma bronca e confessar que eu fiz falta. Sim, eu acredito mesmo nisso! A verdade é que sempre acho que em lugar nenhum (Isso inclui pessoas! E como inclui...) há estrutura suficiente pra suportar tamanha intensidade. Sério, imagino uma verdadeira catástrofe se de repente, eu expusesse tudo que eu penso ou tudo o que eu sinto. Penso nas coisas desabando com meus exageros e devo confessar, essa ideia muito me agrada! Mas meu bom senso ainda me manda um alô de vez em quando e freia esse tipo de impulso que eu, particularmente, adoro! Conheço os perigos desse caminho, mas posso dizer sem medo, que foram eles (sim, os perigos mesmo) que construíram os melhores e mais felizes momentos das minhas 20 primaveras. 
É nessa que eu sigo... Me permito sentirsempre! Mas me contenho o tempo inteiro pra liberar as ‘doses certas’, sem saber se há dose certa, muito menos qual é! Ignorando o fato de que provavelmente existe alguém que não está nem aí pra isso e que quer mesmo embriagar-se em mim, comigo! E esperando que meus impulsos me tomem e eu não perca mais nada com isso. Assim, eu pecaria sempre pelo excesso e há quem diga que esse é o melhor jeito - eu ainda não sei o que eu acho, o excesso ou a ausência? Equilíbrio me parece tão morno, tão chato! É por isso que eu me construo em meias palavras, em meios olhares, aquele papo de ‘para um bom entendedor...’ É uma pena que haja tão poucos bons entendedores e cá pra nós, eu não sou uma leitura tão fácil. Volto aquela de ‘as pessoas que valem a pena’... 
Apesar de assumir quem sou, de vez em quando penso no que mudaria, caso eu não me contivesse. Qual resposta eu teria se soubessem que abri mão de mim, para protegê-lo. E o que meu pai diria se eu dissesse que já quis mudar de cidade pra viver ao lado de alguém. E o que diriam se soubessem que já fui tomada por uma aflição tão grande, que passei mais de uma hora entre choro e oração pedindo que o meu Deus (que sempre se inclina pra escutar-me) olhasse por esse alguém que eu ‘acabara de conhecer’ e já devotava um carinho imenso. O que tantas outras pessoas diriam se soubessem o quanto eu penso nelas, o quanto eu sinto, o quanto eu dou um jeito de protegê-los, olhando suas vidas através do espaço que me concedem. Não sei, de verdade não sei, talvez fosse caloroso o suficiente. Mas é aquela ‘a dúvida é o preço da pureza’ e se é...
Pois agora vou me expor (ou não, rs)! Eu tenho em mim todo amor do mundo e ás vezes as formas mais estranhas de demonstrá-lo, tipo, uma indiferença idiota que nunca reflete o que de fato eu sinto ou penso... E caso já a tenha visto, acredite, eu tenho muito a esconder de você! Minha transparência absurda não me dá opção, tenho que ficar distante pra não ser traída por mim mesma. E nesses momentos, eu devo está morrendo por dentro, com o coração minúsculo e esperando que você vire as costas pra que eu possa, enfim, desabar! Sem entrelinhas, tou dizendo que não sei ser alheia! E me entrego tendo a consciência que pras pessoas erradas, essa informação só ocupa espaço, jamais saberão trabalhar com ela

 Por fim, apesar das interpretações errôneas, das entrelinhas inventadas e divulgadas, devo dizer que tenho recebido um retorno muito bom com o blog. Tenho leitores assíduos e preocupados em diferenciar o que está me atingindo e o que nunca esteve próximo. Estarei sempre por aqui, com greve ou sem greve, esse monólogo de respostas tardias tem me enchido de recíproca, que por vezes, eu nem sabia que tinha!

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Um domingo - apenas um.

"Todos os cálculos indicam  uma vida curta demais, 
mas seguimos seguindo como se fôssemos imortais" 
(Humberto Gessinger) 

É domingo. Casa razoavelmente movimentada. Tira gosto, cerveja e futebol. Como eu disse, domingo. À minha direita, na cadeira do canto da parede, alguém de olhos vagos, apáticos, quando não fechados. Um hematoma enorme no braço esquerdo - espantei-me com o tamanho e aspecto. No supercílio, quartoze pontos mal suturados. Na mão, o velho cigarro de ‘toda vida’. A mente (des)ocupada por ilusões, vício e dependência. Não que eu não tenha acostumado, é óbvio que já me adaptei (embora não quisesse, o 'dever' me obriga). Esquinas, hospitais, viadutos, sempre há exemplos, mas dentro da minha casa, sempre choca, apavora, me trás o maldito sentimento de impotência que me corrói desde que me conheço por gente. Minha necessidade em ser útil me rumou pra medicina, mas foi minha necessidade de ser gente – gente de verdade (carne, osso e principalmente coração), que me trouxe até aqui. E eu não consigo (nem quero conseguir) ver alguém reduzido aquilo. 
Repito, é domingo. Tira gosto, cerveja e futebol. Futebol. Eu, minha camisa, minha bandeira e minha histeria de sempre. Primeiro andar, preciso ficar só! Mas estou ciente, alguém pode precisar de mim lá por baixo. E não demora. Ele sente dor – faço massagem; Ele pede cigarro – contrariada, o atendo! Volto pro jogo. Ele pede água – desço as escadas e o sirvo. "A chance é boa, Denis Marques domina e ...” corro pro ‘pé-da-escada’, ele me chama do outro lado. Nada de gols e nada de jogo. Ele quer analgésico, procuro e o medico. Subo as escadas. Ele grita por mim, aliás, pela minha irmã, está absolutamente convencido que me chamo Iara. Mas é a mim que ele chama. Desço. Ele quer os trilhões de remédicos cotidianos, o ‘controlado’, o de pressão, aquele azul que ele nem sabe pra que serve – separo todos, pego água e espero enquanto ele engole todos de uma vez. Primeiro andar, empate irritante. Escuto o nome da minha irmã, na voz dele, na voz que eu sei que chama a mim e não a ela. Desço, subo, pego isso e ajeito aqui, desço, volto, xingo o juiz e o comentarista, pego mais água. Chuto a cadeira, gol do adversário, partilho a raiva, desço de novo, volto, grito gol, corro, ajeito, sirvo, confiro. Cara, cansei! ( o que não quer dizer que parei de atendê-lo, certo?) E entendo, embora não aceite, o porque de ausentar-se da responsabilidade! 
Enquanto o via vegetando sob a fumaça do cigarro, pensei na morte. O vi chorando mais uma vez, triste, apavorado. Repensei na morte. Seria a liberdade que ele procura? Sem vícios, sem vozes e sem os trilhões de remédios... Seria um alívio? Alívio, pra quem? Pra quem cuida ou pra quem é cuidado? Sem epitáfios, o papo já está mórbido. Mas olhando pra quem não espera mais nada, eu me apego ainda mais a vida, a minha intensidade e minha mania de gostar rápido demais das pessoas, às minhas decepções, aos meus silêncios, aos meus medos... sim, meus medos, por que não? É ótimo saber que ‘tenho tempo’ pra superá-los, melhor é saber que o tempo é incerto e que isto tem que ser feito agora. Amanhã (se houver amanhã), eu terei outros medos e outros sonhos e que podem ser os últimos, sendo assim, preciso superá-los e realizá-los. A brevidade, por esta óptica, é linda. Traiçoeira, mas linda
Já é Noite. Volto da igreja. Conversas particulares na cozinha, espero na sala de som. E epa, o que o acústico MTV do engenheiros do Hawaii tá fazendo aqui? Ele deveria está no meu quarto, na minha estante e claro, no meu SERTÃO (Ainda não faço ideia de como ele veio parar na zona da mata). Pego o encarte, leio a dedicatória. O início. O início da minha história com Humberto Gessinger (Por sinal, fico grata!). O início da minha história com alguém palpável, sem platonismo. Dois meses. Início, meio e fim – dois meses. Breve. Mas aposto que ainda lembram até da caneta que escreveu os irresistíveis pronomes possessivos em letra maiúscula. E devo dizer, ainda é minha highway, em vez de infinita. E foi breve, num foi? 
Próximo das 23 horas. Telefone. Horas e horas regadas a coração, abrigo, confusão e religião. Eu estava me ouvindo, conversando com quem eu era há um tempo atrás, só que com mais juízo, mais sorrisos e mais amor. Aquela sensação aconchegante de que não há solidão. Um espaço cativo no miocárdio por três ou quatro dias de convivência. Pois bem, foi breve e agora é eterno. Está escrita nos textos que ela tanta elogia, enquanto me chama (só pra me contrariar) de Lispector e diz que eu, definitivamente, não existo! 
Quatro da manhã. Estou aqui, escrevendo intensidade em um papel ‘morto’. Eu o dou a vida. E há cor, traços, esquinas e curvas fechadas, diversos caminhos, diversos retornos. Há opções e há amanhã. Não posso escrever, reconhecer a brevidade e ainda sim, privar-me dos impulsos que me fervem o sangue. Não duvide. Eu me apaixono em segundos. Mas não se assuste, é provável que nem saiba, mas devo dizer, caso eu te conte, não me perca! Seja breve, mas seja intenso. Seja... Amanhã é tempo demais!


Mas não precisamos saber pra onde vamos, nós só precisamos ir. Não queremos ter o que não temos, nós só queremos viver.  ♪