domingo, 6 de dezembro de 2015

Escrevi um texto. Postei. Apaguei. Reli textos antigos. Pensei: Preciso escrever. Comecei a digitar palavras aleatórias, voltei ao texto apagado. Ele não sabia o que dizia. Eu não sei o que dizer. Mas por que estou escrevendo? Necessidade? Acho que não. Talvez seja só saudade. Talvez seja só teste. Eu ainda consigo brincar com as palavras? Não sei. Há muito elas me soam perigosas demais, me iludiram e se foram. Como se foram tantas outras vezes. E eu ainda não me acostumei, como pode? Não pode. Mas eu continuo voltando pro mesmo ponto por certezas que são minhas demais para serem compartilhadas. Minhas demais para serem tidas como suas, como nossas. 

Eu realmente precisava escrever, pensei enquanto ria ironicamente. Pensei enquanto meus dedos deslizavam numa velocidade tão absurda que eu sequer acompanhava. Ainda lembro de muitos desses momentos, alguns textos ainda me queimam a pele como me queimavam o coração quando foram escritos, alguns se perderam no tempo, eu nem os reconheço. Sim, Gessinger, minha própria caneta também me trai. Elas não tem culpa. Eu as abandonei. Eu e você, caro leitor, que há muito nada encontra aqui. Mas olha, há quem diga (mestre Gessinger, como sempre) que “na verdade, nada, é uma palavra esperando tradução”. Talvez eu tenha vindo traduzi-la, talvez eu tenha vindo só gastá-la, na vã esperança que nada me reste. Mas cara, isso é impossível. Eu, você e minha ironia, velha companheira, sabemos disso. 

É visível que não há coerência, continuidade, não há raciocínio lógico nessas palavras juntas e postadas. Fazer o que? Eu vivo esbarrando no que não devo, no que não me convém. Mas que posso fazer? Eu vejo mais do que gostaria! Eu vejo a preocupação, eu ouço gemidos. Eu vejo o descaso, eu ouço o silêncio. A droga do silêncio que não merece ser ouvido. E ele me grita. Eu o silencio. Há algo mais redundante? Há anos eu escondo meio mundo de vida. Há vidas me mostrando um mundo e meio. 

Talvez essa postagem, sem pé, nem cabeça. Sem corpo, mas com alma, a minha alma, encerre 2015. Talvez não. Talvez eu sinta necessidade de voltar aqui e constatar sabe Deus o que. É provável que ninguém leia, eu não fui a única a esquecer que isso existia. E se alguém ainda se atreve, sorria comigo, não tente entender. Não tente se achar. É provável que não consiga fazer isso dentro de si, minhas palavras não seriam assim tão poderosas. Se você faz parte disso, por favor, não vista a carapuça! Eu mesma me despi de todas elas, cansei de cair em buracos por estar pesada demais. Sorria, meu bem! Dance comigo, meu amor! Você não sabe o que faz, mas eu sei o que vivo. Eu não ouço nada. Você não virou as costas. Esse texto também não existiu. Foi deletado. Acidentalmente postado, talvez acidentalmente vivido... Talvez.

domingo, 24 de maio de 2015

Sonhos que podemos ter - e teremos!

Terceiro show de Gessinger da vida. Saí do aeroporto. Dois carros recheados de amor me esperavam. Não estou ansiosa. Apenas sem conseguir comer. Não é o show. É o amor. O amor que me deixou no aeroporto de Petrolina, o amor que me esperou no de Recife, o amor que me gritava ansioso em Palmares. Peguei o caminho mais longo, foi melhor, eu precisava matar a saudade. Não matei. Mas entre revoltas e violências obstétricas eu ri um bocado. Corre. Tá na hora. Não tenho maquiagem. Corre. Não tenho celular pra foto. Corre. Alguém espera. Corre, pra que maquiagem? Minha TPM vai estragar tudo. Corre. Chegamos ao Chevrollet. Eles pedem carteira? Entra na muvuca. Que muvuca? Não tem. Corre. Entramos. Duas horas de espera, boca seca. Não vou beber. Não posso. Posso? Contagem regressiva. Gessinger. Esteban. Rafael. Olhos levemente embriagados me diziam: estamos aqui de novo. Tu acredita? Eu? Já tava chorando. Não é idolatria, não era por ele, não era por nada. Eram hormônios, sonhos e amor, misturados no melhor som. Era minha vida cantada – como sempre, pra sempre e sem pressa – por Gessinger. Me descrevendo, me fazendo descer lá no fim do poço e colocar a cabecinha pra fora de novo. Me dando conselhos, desatando os meus nós, jogando na minha cara quem eu fui, quem eu sou e não mais quem eu serei. “O futuro ninguém sabe, ninguém viu...”. “Bora?” E eu fui. Como sempre vou. Chorei. O rapaz do meu lado me olhava assustado. E eu ria. Num frenesi louco e encantado. Minha irmã me abraçava quando ela sabia que eu precisava. E eu pensava “no meu esconderijo, meu altar”, ele estava me esperando há poucas horas, pensava nos meus “karmas e DNA”, contava as minhas “obras primas que não fede nem cheira, não fode, nem sai de cima”. Como alguém pode ter uma música pra tudo que eu faço, penso ou sinto? Não pensei nisso. Não pensei em nada de forma consciente. Tudo me era jogado, numa velocidade que eu quase não acompanhava. Entrei no movimento daqueles cabelos loiros e nem sabia mais como os meus estavam. Falei mais palavrão em duas horas do que no ano inteiro. Blusa rasgada. Como? Não sei, mas não acho que aquela renda foi feita pra todo aquele movimento. Fui olhar o estrago. Sem maquiagem alguma – não é novidade. Cabelos simpáticos. Dei um jeito na blusa. Satisfeita. Na mente só os sonhos. São muitos. São grandes. Talvez eu realmente “ande só” a passos muito largos. É o que tem pra hoje e pra os dias que virão. E eles virão sim! Biquini. Gessinger. Juntos. Quase surto. Gritei, pulei, cansei. Nossa, vai demorar muito? Pensei por dois minutos, antes de me entregar completamente a um show do povo. De uma emoção extrema. Encantada. Duas vezes, talvez. Já na cama. Sem comida, sem sono. Com chuva. Uma hora depois estava a caminho de casa. Um caminho melancólico. Uma nostalgia da noite passada e da instabilidade com que eu ria e chorava. Uma vontade de voar pra os braços do meu pai e o sorriso da minha mãe. Pra debaixo das orações da minha avó e dos “nãos” do meu sobrinho e primo. Almoço. A caçula entra aflita. “O velhinho do quebra queixo tá passando mal, corre tete, tão segurando ele!”. Larguei o prato. Meu pai me seguiu. Ninguém continha o senhor de 60 anos, marcado pelas dificuldades da vida. Tentei me aproximar. Ele não deixava. Dois homens fortes o seguravam e não estavam dando conta. Ele já estava completamente arranhado de se debater. Tentaram soltá-lo. Ele se debatia do mesmo jeito. É espiritual! É a diabetes alta! Dá agua. Chama o SAMU! O papa! O padre! Eu o olhava, um surto psicótico por falta de medicação? – Seu fulano? Tá me ouvindo? O que o senhor tá sentindo? – Sabe o que é? É um nervoso. Ele dizia entre um movimentou ou outro. Tentei conversar e acalmá-lo enquanto o socorro chegava. Chegou. Prenderam. Levaram. Vão sedar e mandar pra casa e amanhã, ele vai continuar desprotegido, vulnerável e muito provavelmente nervoso. Eu tenho sonhos. São muitos. São grandes. Talvez eu realmente “ande só” a passos muito largos. É o que tem pra hoje e pra os dias que virão. E eles virão sim!