sábado, 27 de setembro de 2014

Internato: Semana I

Acordei com câimbra, no fim da minha primeira semana como interna, quase não levanto da cama, a panturrilha tinha dado um nó, assim como a garganta que deu um nó desde a segunda-feira e me faz pigarrear, no mínimo, sete vezes ao dia, ou a cada novo desespero. Há ainda a possibilidade de proteção, já que eu não tenho coragem de sair correndo, minhas pernas travaram pra que eu sequer chegasse ao hospital. Desfiz o nó. Assim como engoli seco o da garganta. Como me desfiz da vergonha de pedir ajuda, de falar que eu não tô entendendo nada. De pensar em desespero: "Taquepariu, eu não sou médica! Então parem de me perguntar se 'podem fazer isso', parem de dizer 'vai embora, doutora Gessica?'" Amigos, já tô muito perdida, não precisam dificultar. Me dêem bom dia, perguntem como anda o Santa Cruz (e olha, tem andado mesmo) e pronto. Num foi assim esses últimos quatro anos? Foi. Não é mais.
Estudo e sinto que preciso estudar muito mais, não vejo tempo, não tenho memória suficiente (e olha que sempre me orgulhei dela), sempre esqueço alguma coisa e se não pode ser as prescrições, esqueço de ir ao banheiro. Sim, quase sempre. Chego em casa com a bexiga explodindo e lembro da barriga daquela gravida do outro dia, que eu achei que ia explodir e o bebê voaria para os meus braços. Não explodiu, nem a bexiga, nem a barriga e a única coisa que voou e tem voado, sou eu.
Tremo só de pensar no tanto que eu tenho que saber, tremo mais do que tremi quando suturei uma cesariana. Tenho tentado não ter medo, isso eu raramente consigo, mas ainda sim, amigos, tenho rido, as vezes de desespero, um riso de quem entende que é capaz, mas nem sempre não sabe como. Tenho rido com a gratidão pela alta, pela conversa, tenho esquecido o frio da UTI, quando ouço: "Vai não doutora, você conversa comigo, eu fico mais calma e ainda tá cedo". Nesse contexto o doutora nem parece tão ruim.
É gratificante saber que mesmo me perdendo três vezes por dia pelos corredores, sistema e doses de remédio, não há outro lugar que eu quisesse estar, que eu fosse mais eu. Além disso, pra todo desespero tem seu Vila e dona Betania, que ficam ansiosos a contar os minutos para que meu intervalo chegue e eles possam me ouvir dizer que tá tudo bem. E claro, pra toda folga tem Santa Cruz, TRIIIIIII! (Ora, há coisas que nunca mudam),