sábado, 1 de novembro de 2014

Internato: Semana VI.

Com o desespero diminuindo (acabar nunca), com a adaptação a rotina dos muros brancos, a gente vai se acostumando com certas coisas. Já entendo que posso ter o pijama cirúrgico arrancado do meu corpo pela mulher que tá parindo (não é tarefa difícil, pois o tamanho único tem capacidade para 5 gessicas), ela vai pedir misericórdia, vai rezar pra Deus ajudar, vai chamar a mãe três vezes por minuto mesmo que ela não esteja lá, vai pedir que você arranque aquele menino dela. Algumas vão fingir que desmaiaram ou que estão tendo convulsões, a cesariana é a única coisa que elas pensam quando a dor é maior do que acham que podem suportar. Elas tem certeza de que eu não faço nada. Ué, mas o que eu posso fazer? Deus em sua magnitude fez a natureza fazer tudo por si só. As crianças nascem por si e todas aquelas manobras que a academia ensina, bom, dificilmente você conseguirá fazer todas elas (as vezes nenhuma). Suo junto com as pacientes, por vezes choro (por muitas vezes choro), peço que tenham coragem, peço que apertem minha mão com força e na maioria das vezes me arrependo disso (mentira, a gratidão compensa a falta de circulação dos dedos), peço que não gritem pra não cansarem, mas se fosse eu, ia dizer que ia gritar o quanto quisesse, porque tá doendo. E isso é tudo (ou nada) que eu posso fazer. Avalio de uma em uma hora o batimento cardíaco do bebê, a dilatação do colo da mãe, conto as contrações enquanto elas se contorcem de dor. Na verdade, vou lá com bem mais frequência, em intervalos não tão regulares tento acalmar aquela agonia que dará espaço a um momento único pra se ver e, acredito eu, pra se viver. Quando a criança dá sinais de que virá ao mundo, aquela correria pra sala de parto, mulher gritando e se arrastando pro corredor, não é das cenas mais bonitas, mas sem dúvida, é uma das que mais gosto de presenciar, aquela sala dá fim a toda agonia e na maioria das vezes, traz uma alegria indescritível, pra paciente que tem seu filho nos braços, pra mim que pude trazê-lo ao mundo, para mim de novo, que as vezes só assisti o parto que foi feito por uma das enfermeiras ou por algum médico e na hora que botei o pé pra fora da sala, fui envolvida pelo abraço dos familiares em lágrimas, fui abençoada duas ou mais vezes pela profissão que eu escolhi, ou, como eu gosto de dizer, pela profissão que me escolheu. Fora da sala de parto, ali no alojamento conjunto, pra onde as mulheres vão no pós parto, a ansiedade é outra, perguntam pela alta de cinco em cinco minutos. Não importa o quão bem você as trate, elas só querem ir embora. Quem não quer? Estão em uma enfermaria para 07 pessoas, com direito a apenas uma acompanhante e a visita do pai do bebê em qualquer hora, estão com calor (com muito calor), com saudade do conforto de casa, querendo privacidade para si e pro seu filho e ainda por cima, aparece uma criança dentro de um jaleco branco, que aperta a barriga já dolorida, olha o sangramento pela décima vez, mexe aqui, mexe ali, como se soubesse o que tá fazendo e ainda diz que só vai dá alta se tiver tudo bem e quando olhar os exames. "Mas ora, ela num tem idade nem pra está aqui sozinha". Pois, é por isso que eu passo. E quando consigo convencê-la da minha competência, descubro que ela não está nem aí pra isso, alta, só querem alta. Entre um stress e outro, só tenho cada dia mais certeza das minhas escolhas e de um propósito de Deus maior pra o que o futuro me reserva. Tô feliz, com desespero, fome e sono, tô muito feliz.

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