Assentamento MST. Sol forte. Um certo alguém falava sem pausa pra respirar e eu me perguntava como conseguia. (Ora essa, como se eu mesma não fizesse isso sempre). O assunto era interessantíssimo, mas eu tava entretida demais com aquele céu - ora azul, ora de um cinza pesado, partido por um arco-íris com cara de esperança. Andara cansada, quisera desistir, mas estava ali. Mal tinha chegado e já havia derramado algumas poucas lágrimas, um senhor que nunca havia me visto, falou dos seus filhos e sem saber contou a minha história. Naquela hora, embora estivesse rodeada de crianças (o que sempre me traz uma paz incrível), eu quis me transportar pra casa, abraçar meus pais e agradecer – só agradecer.
E estou eu, perdida nos meus devaneios (como sempre), balançando a cabeça e parecendo concordar com tudo que estava sendo dito. E eu sei que concordava - embora não tivesse escutando - conhecia o suficiente pra saber que estavam expondo a minha opinião com um grau a mais de extremismo e dois graus a mais de conhecimento... Homem. Negro. Uma bolsa que até hoje não se sabe o que carregava, roupas sujas. Ele riu. Eu saí de mim e voltei pra terra, retribui o sorriso. Ele me estendeu a mão, apresentou-se de maneira apressada. Nome, sobrenome, naturalidade e mais alguma coisa que eu, embora tenha me esforçado, não entendi. Ele continuou sorrindo e foi embora. E eu voltei ‘praqui’ pra dentro, agora com um motivo a mais, com um sorriso e um conhecido a mais.
Homem, moreno, companheiro de vivência. Aproxima-se, toca o meu ombro e só depois de alguns minutos eu percebo que estava falando comigo. Apresso-me pra acompanhar a conversa e não ter que dizer: ‘desculpa, repete por favor?’, até porque provavelmente eu estava balançando a cabeça positivamente como quem está entendendo e concordando com tudo (Sabe aquela de ‘sorria e acene’?)! Ele estava me dizendo que tinha ficado de olho, que aquela simpática pessoa de nome pouco comum (lelêu), era um desconhecido pra vizinhança e que provavelmente tinha participado de um assalto na cidade vizinha no dia anterior. Todos param. Me olham assustados. E eu, continuei lá, olhando pra meio mundo de pessoas espantadas. Devo ter soltado no máximo um: “hum...”.
Não consegui mais ficar a sós comigo – não pelos próximos minutos. “O que ele disse? o que ele fez? Como foi isso?” Cara, eu apertei a mão de um cidadão que me deu um sorriso. Algo a mais? Não pra mim. Devo confessar que ainda me fez bem, dentre aquela multidão de estudantes interessados na história do MST (me incluo nisso, por favor), ele sorriu pra mim, parece que estava lendo minhas reflexões sobre o céu cinza e o arco-íris da esperança. Me fez ainda melhor ele não ter se importado com quem eu sou, de onde eu vim, nem o que eu faço. Porque haveria eu de me importar? (Eu não vou perder minha cautela por isso, certo? Ainda sigo os conselhos da minha mãe e não saio falando com estranhos pelo mundo – até saio. Mas enfim...)
Petrolina. Ano de 2010. Noite. Mulher, branca, bem vestida, simpática – bem simpática. Devo confessar, nessa época eu me continha e ao menos num ambiente sociável conseguia ater-me a conversa e deixava os devaneios para a madrugada, o frio e o meu fiel escudeiro (caderno ou notebook). A conversa tava um tanto tediosa, mas as companhias eram boas... Então, o que você faz? (Até hoje eu odeio essa pergunta). – Faculdade, respondi. (Como se não soubesse a pergunta que se segue). Que curso? – Medicina (Nunca pensei que eu tivesse vergonha de dizer em outras palavras: ‘pois é, realizei meu sonho’). A velha pausa dramática, a expressão de espanto com um sorriso intruso (me sinto um ET nessas horas e falo sério), os adjetivos que exaltam a inteligência anormal que eu não possuo. E aí, a velha expressão de desentendida (de sem jeito mesmo) e as tentativas inúteis de desviar o foco da conversa. Pronto, na cabeça desta senhora feliz (e de algumas outras pessoas), há status. Eu fico rindo e me pergunto o que ela pensaria se me conhecesse dançando ciranda, levantando poeira com pessoas lindas e alternativas. Ela diria que eu era uma estudante de medicina? A comida preparada para mim teria o mesmo sabor? Aliás, haveria comida? haveria convite?
Palmares. Dias atuais. Janela aberta, chuva fina. Cá estou eu, comparando sorrisos e situações. Um possível assaltante e uma senhora de classe média alta (ou só alta, vai saber). Ainda acho que o primeiro enxergou mais de mim em dois segundos do que a mulher bonita em 3 horas de conversa. E ninguém ficou de olho nela e ninguém veio me perguntar o que ela havia dito. O que ela diria se eu dissesse que dormi em assentamentos do MST, que tenho o sonho de trabalhar nos hospitais públicos e não na confortável clínica do irmão dela? O que ela diria se eu falasse que conheci pessoas sem ensino médio e que sabem tanto sobre tanta coisa, que perto deles eu não me atrevo a abrir a boca - eu só os escuto. O que ela diria se eu falasse que preferi o sorriso daquele homem negro de nome pouco comum, do que os bilhões de sorrisos despreocupados que recebi dela no meio da noite? O que ela diria se eu dissesse que não é ela à quem eu quero servir?
Imaginem então, se ela descobrisse que eu não estou preocupada com o que ela diria? Que a mídia já me diz isso todos os dias e que eu me perco nas minhas músicas pra não escutá-la? Imaginem se ela me visse querendo ouvir os que silenciam ou são silenciados? Imaginem só...
Fim de texto. Calor confortável no coração. Esperança. E um – apenas um – sorriso em mente. (Imaginem se ela souber que não é o dela? rs)
(Este é mesmo o céu e o arco-íris em questão)
Meniinaaa :O Cada vez mais empolgada com teu jeito de escrever e com o que você escreve. Adoro essas coisas. rs. Sou tua fã. Só isso. rsrs.
ResponderExcluirMe lembra Clarice Lispector.
rs
Beijo!
Fernanda
Pare com essa história de fã, rapaz! rs
ExcluirUm show de texto.
ResponderExcluirSerá que eu fui mais um a fazer a pausa dramática e a velha expressão de espanto? rs
Hum... Creio que não, parceiro! rs
ExcluirIncrível como vc consegue transformar experiencias próprias em ideias onde outras pessoas conseguem entender seus sentimentos em determinados momentos.
ResponderExcluirÉ interessante ter uma ideia de como vc se sentiu em ocasiões em q talvez nunca vivenciarei.
Como sempre vc me surpreende benhe,
e sempre me orgulha!
♥
Fico feliz em dá orgulho a uma pessoa tão especial pra mim
Excluir♥
Que lindo, lindo demais! Tu consegue traduzir em palavras simples muitas vezes os sentimentos escondidos dentro de mim... E aposto que não acontece só comigo ;)
ResponderExcluirSem mais comentários, estou silenciada diante desse texto. Nem costumo comentar, só comentei porque depois de ler isso senti NECESSIDADE de contar como você me tocou...
Te gosto muito. Beijos!
E eu que aprendi tanto contigo, né Beca?
ExcluirGosto muito de ti também ♥