Eu gostei dos seus óculos, você do meu sotaque. Eu quis perguntar ‘onde vende?’, você ‘de onde é?’. Mas aí, eu gostei do seu sorriso, você, do jeito nervoso com que mecho no cabelo... E num meio desses sorrisos, desses óculos, cabelos e sotaque, nós nos gostamos. Consumimos nosso tempo, consumimos nossa chama. Sem pressa, sem passado, sem passo. Eu conheci teus tons, principalmente os baixinhos ao pé d’ouvido, me chamando pra ser tua, se fazendo meu. Eu adorava teus olhares, mesmo aquele que me gritava por ciúmes, principalmente aquele que ia sumindo vagarosamente - até fechar-se por completo, de quando eu me aninhava em teus braços. E eu fui indo, invadindo tua estrada, fazendo teu caminho... Até chegar ali. Era escuro, sórdido, aparentemente inabitável. Mas alguém já havia estado ali e não me parece ter saído de maneira amigável. Improdutivo, deserto e estranhamente convidativo. Uma tarde, uma única tarde, foi o tempo em que consegui ficar. Estávamos à beira do mar, sendo só nós, ‘de nós’ e eu estive ali. Pena você ter percebido... Abriu a porta e com um sorriso desconcertado me deixou claro: Aquele era teu lugar, só teu. Eu quis ficar, já quis voltar, mas sem sucesso. Eu tinha chegado ao nosso limite. Sem avanços, alguns retrocessos, mas progressão não mais. Nunca mais.
Eu já tive salas vazias dentro de mim, eu te entendo. Hoje estão abertas, bem aconchegantes, seus sapatos ocupam o chão, seu perfume o teto, nas paredes nossos resquícios de suor, de perfume, de vida... É nosso, tem ar e tem cor e eu poderia tornar o teu quarto escuro tão bonito quanto, mas não... É proibido pra mim, aliás, até pra você. Não sei quem saiu de lá, mas sei quem ficou. Teu medo é sensato, mas pra que diabos você quer sensatez? Eu gostei do teu óculos, você do meu sotaque. Volto a perguntar, pra que sensatez? E você ri, como sempre ri. Diz ser – momentaneamente – inteiramente meu, mas isso eu já sei. A tua parte que não é minha, também não te pertence... é ou foi de um alguém que não quer ou não pode voltar - e eu já não sei se devo ficar feliz com isso.
E sempre que somos só nós, te vejo recuar, esconder-se entre os meus cabelos, meus sentidos. Esconde-se em mim pra que eu não o veja. Cara, isso é sério? Com tanta coisa ruim no mundo, você se protege de mim? Eu sou teu veneno e teu remédio e a cada dia que passa, você fica mais confuso, sem saber como livrar-se, se quer ou se tem que livrar-se. Eu te chamo, eu te amo, eu te quero, mas por inteiro, sem salas vazias trancafiadas por fantasmas que eu – sinceramente – não quero conhecer.
Enquanto isso a chama finda, enquanto você não se decide, ela acaba, me acaba, ‘dá cabo de nós’. Enquanto você está brincando de: ‘quem eu devo ser?’, eu perco o sonho de quem seríamos se fossemos dois – completos e plenos. Enquanto você oscila entre o piano e o bar, eu tomo o vinho e a nossa música passa sem nós.
Vem, apareça, seja. Ainda há tempo, ainda é tempo!
É um direito teu evitar a dor, caro leitor! Mas que fique claro, evitando-a, você evita todo resto!
Me identifico!
ResponderExcluirSério? o.O
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