Ela ouve Chico Buarque e se perde no azul dos olhos dele, enquanto eu me perco nos olhos fechados dela, imaginando que seja eu quem ela vê nessas situações. Ela não bebe, não ao meu lado, tem uma cautela descabida quando o assuntou sou eu. Ou não... Não dá pra defini-la, muita racionalidade impregnada no que diz sentir. Mas ela sente, sente demais. Chora assistindo futebol. Não derrama uma lágrima em despedidas – mas sofre, sofre muito. Eu encho o copo dela. Ela sorri, vai beber o suficiente pra não rasgar a razão como rasga o guardanapo em suas mãos, pobre coitado, vítima do nervosismo que eu a causo. Eu a deixo nervosa? Não. Nós dois (ela e eu) que tiramos o sossego dela. Chora assistindo futebol, eu já disse isso? Ah, mas chora muito! Como se fosse o último jogo, como se fosse vida ou morte. Olha que as vezes é. Ela é dedicada, isso a priva de tanto, mas posso sentir o gosto doce do futuro que a espera. Eu sou doce? Talvez, talvez... Eu não lembro como ela dorme, não sei nem se dorme, sempre está acordada demais, sempre querendo ir um pouco além. Mas ela sonha comigo. Eu já a tive em meus braços. Sim. E terei mais uma vez, paratodosempreamém. Essa ideia me assusta, me acalma, me consola de tudo que me é amargo. É a mulher destinada à mim. Existe destino? Talvez. Mas nós... Ah, nós existimos sim.
Pausa.
Risos.
Ah, minha menina... Ela sofre com os bregas mais infames, me divirto com a cabeça jogada para trás, enquanto os olhos se fecham e a mão alcança o céu. Só não é engraçado o receio de que ela dedique esta música pra alguém, existe alguém? Existe mais alguém? Não. Não penso a respeito. A conheci num bar, não hesitava ao copo cheio, sorria, sorria muito e sorriu pra mim. Ganhei a noite, deixei que a cerveja esquentasse no copo. Ela sorriu pra mim. E melhor, ela continua sorrindo para mim, por mim. É minha mulher, sabe ser minha menina. Ela estuda e me ensina tanto, ela me salva todos os dias. Ela também gosta de futebol, é uma paixão desmedida. Sofre a perda. Goza da vitória. Mulheres assim são tão raras. E cara, esta é minha! Ela é linda enquanto dorme, adoro observar a paz que ela transmite mesmo ao dormir, adoro saber que ali, ela é inteiramente minha. Eu pertenço a ela. Eu preciso dela e ela está aqui. E estará até que nos falte vida.
Pausa.
Pausa.
Pausa.
Silêncio.
Bom, ela ouve de tudo. Tem duas preferências tão opostas que não quero citá-las. Reflete a política mais embutida nas canções, rir e até dança aquelas músicas sem conteúdo e sem propósito nenhum. A conheci faz tempo, por inteiro, nem tanto tempo assim, se continha por todos os outros. Ela bebe, bebe sim. Bebe quando quer e quando pode, muito mais quando quer. Fala o que sempre quis e achou que não devia. Ela gosta dessa liberdade. Ela gosta de estudar, sim, na hora que quer e o que dar na telha, este motivo a leva a indisciplina, nunca a irresponsabilidade. E quer saber? Adoro isso nela. O futebol, ah, o futebol. Não há programa melhor pra ela. Não tem shopping, cinema ou show. Futebol. Ela ama, sente na pele cada um dos movimentos, seja do jogador ou da torcida. Vibra, chora um bocado. Aquilo tudo é dela. Ela dorme muito bem, como quer e como é confortável, às vezes abre mão do seu espaço, as vezes reclama de dor na coluna, mas ela sonha, sonha tanto e com tanta coisa que nem o caderno em que ela os escreve comporta tudo. Ela é, sem dúvida alguma, a mulher da minha vida! Inseparáveis, até mesmo após a morte. Eu a amo, mudaria algumas coisas, sim, pra que mentir? Mas sem esses detalhe, ela não teria o mesmo sorriso, a mesma fé, nem as mesmas certezas. Sim, eu amo as certezas que ela traz. E eu vou acompanha-la pra onde ela quiser ir, pra onde o mundo levá-la. Eu vou com ela, eu vou por ela. Ela é minha, inteiramente minha...
Dificilmente alguém entenderá a raiz do texto.
Isso me diverte! E sim, é um desafio ;)
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