E eu sabia que inevitavelmente esse texto existiria, talvez só mentalmente, perco o prazer da escrita quando a coisa é premeditada. Mas sempre me propus a escrever sentimento, esse não poderia passar – literalmente – em branco. Há um ano, eu estava manchando papéis com dor, rabiscando meus soluços e o meu medo de não ter força, perdida no meio de rostos dóceis e conhecidos, que por mais que tentassem, não me trouxeram nenhum alívio. Você tinha ido e eu não te dei sequer um último beijo na testa, não segurei tua mão quando o medo se igualou a fé (tenho certeza que em momento algum, ele superou o que você tinha de mais forte), não sussurrei no seu ouvido que tudo ficaria bem. Dia 25 de setembro de 2011, tudo que eu mais quis foi voltar no tempo ou pedir que ele parasse, pra que eu também não precisasse me mover. Doía e eu não tinha ideia de como seria dali pra frente e você, vózinha, não ia está aqui pra me dizer!
Durante essa semana, eu fiquei imaginando quão mórbido isso seria, se valia mesmo a pena relembrar toda dor. Engano meu, doce engano. Ainda dói não te ver na última cadeira da mesa da cozinha, lembrar de você à cada procissão. Ainda dói saber que jamais verei aqueles olhos inocentes outra vez. Mas não há espaço pra morbidez! A saudade machuca, mas não há ausência! Nenhuma... Você está comigo e em mim! Você está em cada Ave Maria que eu rezo lembrando do seu sorriso devoto, está na felicidade das reuniões em família que sempre foram e continuam sendo por você! Está nos meus sonhos profissionais cada vez que lembro do seu orgulho. Está, principalmente, quando penso nos meus filhos e nos muitos dos seus ensinamentos, que eles indiretamente receberão!
Sendo assim. Está decidido! Sem ausência, sem tristeza! Com muita saudade e muitas recordações de um tempo que não volta, mas não se esquece. Há um ano, eu não sabia como seria, eu nunca soube lidar com perdas, mas até ali, perdas definitivas só por ter chegado fora do horário. E devo dizer, me perguntei se este não foi o maior problema. Não estive aqui, não consolei os meus e não fui consolada, não a vi adoecer, ter medo, não a vi morrer. E hoje, fico grata! Não tenho imagens do teu sofrimento, da dor que tantos tiveram na hora de te dar adeus, não tenho lembrança alguma do seu corpo dentro de uma caixa de madeira... Eu lembro da tua voz rouca, dos meus sábados ao teu lado, das suas birras e das suas falsas “brigas” cheias de amor com meu pai. Eu lembro da sua fé, dos seus exemplos. Eu lembro de você, sendo você...E isso não há nada que pague!
É um ano de não ausência. Um ano de saudades. 365 dias que você foi fazer o que sempre fez, olhar por nós, só que agora muito bem acompanhada, acordando sob a janela e os cuidados do nosso Deus. Então me diga, por que, por que tristeza? Por que regrar esse egoísmo? Eu sinto sua falta – demais e ainda desidrato sempre que vejo ou penso nos lugares que inevitavelmente ficarão vazios, na mesa, na missa, na minha formatura e casamento. Mas tenho certeza que você nunca esteve tão bem, tão segura e tão satisfeita... Repousando nos braços de Cristo, coberta com o manto da nossa mãe. Ora, fechos os olhos e largo um sorriso. Isso não dói, isso aquece!
Não achei motivos – e nem quero, pra dar a isso aqui um tom meloso ou fúnebre. Eu só estou tornando público um de nossos diálogos, vó! Só estou mostrando que eu não tenho porque falar de morte, quando houve uma vida inteira de amor! Não tenho porque falar em fim, se você está eternizada no coração de cada um de nós. Eu não tenho porque não ficar grata pela felicidade que eu sei que você sente agora! Continue olhando por nós, porque de você, lembramos sempre! Continue sorrindo pra iluminar o caos que se instala nesse mundo. Continua aqui, comigo, em mim! Você não acreditou que eu te deixaria mesmo ir embora, acreditou?
Eu te amo, vozinha! Parabéns pelo primeiro ano ao lado do teu, do nosso Deus!
"Não, eu não vou perder a fé, nem desistir. Foi você que me ensinou antes de ir, vou vivendo assim, conhecendo o coração que você fez pulsar em mim ♪"
Quem se interessar, pode conferir aqui o texto feito há um ano atrás...
"Não, eu não vou perder a fé, nem desistir. Foi você que me ensinou antes de ir, vou vivendo assim, conhecendo o coração que você fez pulsar em mim ♪"
Quem se interessar, pode conferir aqui o texto feito há um ano atrás...

Apesar da "dor" que senti ao ler esse texto, foi otimo. Dona Quitéria me faz falta. Mas, pelas inúmeras vezes que meu pai sonhou com ela dizendo que estava bem, pude ter a certeza que ela está bem melhor onde está.
ResponderExcluirEla está olhando por você, está em você. Te deixou fé e ensinamentos que não são encontrados em lugar nenhum!