"Todos os cálculos indicam uma vida curta demais,
mas seguimos seguindo como se fôssemos imortais"
(Humberto Gessinger)
É domingo. Casa razoavelmente movimentada. Tira gosto, cerveja e futebol. Como eu disse, domingo. À minha direita, na cadeira do canto da parede, alguém de olhos vagos, apáticos, quando não fechados. Um hematoma enorme no braço esquerdo - espantei-me com o tamanho e aspecto. No supercílio, quartoze pontos mal suturados. Na mão, o velho cigarro de ‘toda vida’. A mente (des)ocupada por ilusões, vício e dependência. Não que eu não tenha acostumado, é óbvio que já me adaptei (embora não quisesse, o 'dever' me obriga). Esquinas, hospitais, viadutos, sempre há exemplos, mas dentro da minha casa, sempre choca, apavora, me trás o maldito sentimento de impotência que me corrói desde que me conheço por gente. Minha necessidade em ser útil me rumou pra medicina, mas foi minha necessidade de ser gente – gente de verdade (carne, osso e principalmente coração), que me trouxe até aqui. E eu não consigo (nem quero conseguir) ver alguém reduzido aquilo.
Repito, é domingo. Tira gosto, cerveja e futebol. Futebol. Eu, minha camisa, minha bandeira e minha histeria de sempre. Primeiro andar, preciso ficar só! Mas estou ciente, alguém pode precisar de mim lá por baixo. E não demora. Ele sente dor – faço massagem; Ele pede cigarro – contrariada, o atendo! Volto pro jogo. Ele pede água – desço as escadas e o sirvo. "A chance é boa, Denis Marques domina e ...” corro pro ‘pé-da-escada’, ele me chama do outro lado. Nada de gols e nada de jogo. Ele quer analgésico, procuro e o medico. Subo as escadas. Ele grita por mim, aliás, pela minha irmã, está absolutamente convencido que me chamo Iara. Mas é a mim que ele chama. Desço. Ele quer os trilhões de remédicos cotidianos, o ‘controlado’, o de pressão, aquele azul que ele nem sabe pra que serve – separo todos, pego água e espero enquanto ele engole todos de uma vez. Primeiro andar, empate irritante. Escuto o nome da minha irmã, na voz dele, na voz que eu sei que chama a mim e não a ela. Desço, subo, pego isso e ajeito aqui, desço, volto, xingo o juiz e o comentarista, pego mais água. Chuto a cadeira, gol do adversário, partilho a raiva, desço de novo, volto, grito gol, corro, ajeito, sirvo, confiro. Cara, cansei! ( o que não quer dizer que parei de atendê-lo, certo?) E entendo, embora não aceite, o porque de ausentar-se da responsabilidade!
Enquanto o via vegetando sob a fumaça do cigarro, pensei na morte. O vi chorando mais uma vez, triste, apavorado. Repensei na morte. Seria a liberdade que ele procura? Sem vícios, sem vozes e sem os trilhões de remédios... Seria um alívio? Alívio, pra quem? Pra quem cuida ou pra quem é cuidado? Sem epitáfios, o papo já está mórbido. Mas olhando pra quem não espera mais nada, eu me apego ainda mais a vida, a minha intensidade e minha mania de gostar rápido demais das pessoas, às minhas decepções, aos meus silêncios, aos meus medos... sim, meus medos, por que não? É ótimo saber que ‘tenho tempo’ pra superá-los, melhor é saber que o tempo é incerto e que isto tem que ser feito agora. Amanhã (se houver amanhã), eu terei outros medos e outros sonhos e que podem ser os últimos, sendo assim, preciso superá-los e realizá-los. A brevidade, por esta óptica, é linda. Traiçoeira, mas linda!
Já é Noite. Volto da igreja. Conversas particulares na cozinha, espero na sala de som. E epa, o que o acústico MTV do engenheiros do Hawaii tá fazendo aqui? Ele deveria está no meu quarto, na minha estante e claro, no meu SERTÃO (Ainda não faço ideia de como ele veio parar na zona da mata). Pego o encarte, leio a dedicatória. O início. O início da minha história com Humberto Gessinger (Por sinal, fico grata!). O início da minha história com alguém palpável, sem platonismo. Dois meses. Início, meio e fim – dois meses. Breve. Mas aposto que ainda lembram até da caneta que escreveu os irresistíveis pronomes possessivos em letra maiúscula. E devo dizer, ainda é minha highway, em vez de infinita. E foi breve, num foi?
Próximo das 23 horas. Telefone. Horas e horas regadas a coração, abrigo, confusão e religião. Eu estava me ouvindo, conversando com quem eu era há um tempo atrás, só que com mais juízo, mais sorrisos e mais amor. Aquela sensação aconchegante de que não há solidão. Um espaço cativo no miocárdio por três ou quatro dias de convivência. Pois bem, foi breve e agora é eterno. Está escrita nos textos que ela tanta elogia, enquanto me chama (só pra me contrariar) de Lispector e diz que eu, definitivamente, não existo!
Quatro da manhã. Estou aqui, escrevendo intensidade em um papel ‘morto’. Eu o dou a vida. E há cor, traços, esquinas e curvas fechadas, diversos caminhos, diversos retornos. Há opções e há amanhã. Não posso escrever, reconhecer a brevidade e ainda sim, privar-me dos impulsos que me fervem o sangue. Não duvide. Eu me apaixono em segundos. Mas não se assuste, é provável que nem saiba, mas devo dizer, caso eu te conte, não me perca! Seja breve, mas seja intenso. Seja... Amanhã é tempo demais!
Mas não precisamos saber pra onde vamos, nós só precisamos ir. Não queremos ter o que não temos, nós só queremos viver. ♪
Texto ótimo, como sempre. Tu nasceu com o dom da escrita!
ResponderExcluirA cada texto, sinto a sensação de que quem tá escrevendo isso sou eu, mas não tenho essa capacidade de me expressar assim...
ResponderExcluir(evandro)
Claro que tem, rapaz! Já tentou? rs
ExcluirLinda! Como sempre, surpreendendo. Mas agora eu já espero por isso, você escreve com a alma.
ResponderExcluirVocê, realmente, não existe! kkk
Eterna e ponto.
Fernanda.
Eu existo sim, marmenino!
ExcluirEu e minha alma, rs.