Pois bem, estou aqui pra me despir vagarosamente. Uma peça de cada vez. Uma armadura de cada vez. Um pedaço do meu eu, de cada vez. Pensei numa trilha sonora, num ambiente pouco iluminado, pensei em pedir que fechasse os olhos, mas como eu espero que você leia assim? Bem, talvez eu quisesse ler pra você. Talvez aí colada ao seu ouvido, talvez daqui, com um tom leve - carregado de malícia, não, de malícia não, de verdade! Mas voltemos, aqui vai mais um dos textos que deveriam ser raros – mas não têm sido, mais um no qual eu me entrego propositalmente. Coincidência ou não, na maioria das vezes eles são escritos na madrugada, o turno mais sincero do meu dia. Seja pelo meu sono, seja por esse silêncio que ora sussurra, ora grita, mas se faz ouvir em qualquer ocasião.
Eu lembro do dia em que comecei a escrever, lembro do porquê, lembro do quanto tudo estava pesado. Mas não sei em que momento eu comecei a camuflar tudo o que eu sentia, não sei onde aprendi os jogos de palavras que me fazem parecer contraditória e que deixam os meus leitores se perguntando o que diabos eu tenho na cabeça. Embora eu tenha clareza do motivo que me levou a isso, não sei quando comecei a pôr em prática. Mas posso afirmá-lo, tudo que eu mais quero é ser lida, em linhas ou entre elas, tudo que eu quero é que alguém tenha uma olhar sensível como o meu, que ria dos meus jogos, me chame de bobinha e pense: ‘você não me engana’, há quem faça isso, mas são raros, são poucos e na maioria das vezes não são destinatários. A primeira armadura já caiu, como você se sente? É agradável para você? Me sinto mais livre, confesso.
Pode ligar a música, já que não pode fechar os olhos, crie o ambiente ao seu gosto. O assunto agora é transparência – cuidado na imaginação. Que eu sou estupidamente transparente, todo mundo já sabe; Que eu uso de indiferença pra esconder-me também não é novidade. Mas que eu vivo na torcida que tudo isso desabe, quase ninguém esperava, certo? Pois bem, eu torço, torço muito! Eu acordo esperando por um: ‘decifrei você, ganhei seu jogo’. E por que eu jogo se espero perder? Porque eu não sei fazer de outro jeito. Tudo por aqui me parece tão óbvio e ainda sim ninguém vê, vejo um mundo perdido entre fumaça e buzina, enclausurado nesse desenvolvimento desenfreado, se não conseguem enxergar algo tão claro, porque eu facilitaria? Não vou mostrar o que não querem ver, é pedir um pouco demais. Eu respondo todas as suas perguntas, todas. Basta ter sensibilidade pra ouvi-las, lê-las, ou arrancá-las do meu olhar. Acredite, é fácil! É absurdamente fácil.
Então, confundi você? Espero que não. Acredite, estou mesmo tentando ser clara. Ser só eu, despida, sem mistério. Eu e você, num quarto, numa sala, numa varanda até. Conversas leves, sorrisos, afeto e o que mais estiver de comum acordo. Eu me desabaria sobre você, eu te deixaria me ver sem véu algum e traduziria minhas palavras pro teu idioma. Eu libertaria a gente desse jogo idiota que eu imponho sobre mim. Desde que você me visse, desde que fosse capaz de atravessar a armadura sem quebrá-la. E aí você seria o único e eu estaria esperando por você esse tempo todo. Agora esquece esse tempo verbal, eu nunca entendi bem essa coisa de ser ‘futuro do pretérito’, passado e amanhã no mesmo sufixo. Pode ser presente! É só olhar pra mim – mais uma vez, por mais algum tempo.
A música ainda toca? Não importa, estou chegando ao fim. Se por ventura, tudo ainda te parecer muito confuso, é sinal que me falta transparência ou te falta sensibilidade – quem sou eu pra responder isso, não é verdade? Talvez te deixe uma sensação chata de impotência e acredite, ela também é minha. Eu odeio guardar segredos, odeio guardar os meus segredos e é por isso que eu sempre os conto aqui, com um grau de ficção e dois de entrega. No dia em que eu cansar, entre risos nervosos ou não, eu contarei tudo pra todo mundo, eu deixarei alguns surpresos, confirmarei as suspeita de poucos outros. E sairei flutuando, sem esse peso de esconder-me dentro de mim ou das minhas próprias palavras o tempo inteiro. Nua, sem armaduras, sem armadilhas, sem armas... (E penso eu, que não há de demorar muito!)
Não pretendo te desvendar. Acho que perderia a graça, mesmo enxergando mais do gostaria, deveria ou poderia (sei lá). Mas sei bem de onde vem tantas metáforas e jogos de palavras. Acho que de uma influência que eu também tenho, que está bem explícita, sempre, em seu blog.
ResponderExcluirQuem sou eu? Mas espero que a música nunca acabe, com ou sem revelação de segredo. A única coisa que desejo é não precisar deixar de ler textos tão intensamente lindos.