Eu já tinha me dado por vencida pelo sono, se não fosse pelo torpedo que eu recebi: “Você não escreve mais? A inspiração fugiu? Se sim, avisa! Eu procuro! Tenho sentido tua falta, volta logo!” Eu ri. Eu estou tão perto do remetente, mas sempre ouvi dele que embora não entendesse, era aqui que ele conseguia me ver por inteiro. Sem meus moralismos construídos, destruídos e reconstruídos com o tempo, sem a minha ironia que sempre escondeu toda minha fragilidade, sem segredos, mas sem abrir mão do mistério que sempre garantiu que só os olhos certos me veriam. Eu estava respondendo a mensagem, mas desisti. Aqui está a resposta e o agradecimento, era disso que eu precisava, um tempo comigo e ironicamente outra pessoa – que não eu – me cobrou isso.
Minha inspiração não fugiu, pelo contrário, a sua intensidade assustaria mais da metade dos leitores que passam por aqui e é por isso que eu a tenho ignorado. E por mais que ela grite, me bata, arranque meu sono, eu finjo que não a vejo ou me deixo vencer pelo cansaço óbvio do cotidiano e fico adiando nosso encontro. Em algumas vezes, fiz diálogos solitários bem arquivados no meu computador, por necessidade minha, por despejar o peso que mais ninguém alivia, além de mim. É bom lembrar que eu sou mais, muito mais, do que os pedaços que as pessoas deixam por aqui.
Devo reconhecer que, exceto em situações extremas, não sei deixar as pessoas irem embora – não totalmente. As faço acreditar que se foram, mas tenho um instinto protetor idiota que me faz ficar espiando, pelo mínimo espaço que seja, pra me assegurar de que estão bem e me dá a sensação de que ainda tem algo meu ali. Acho que não sei me despegar de ninguém – de ninguém mesmo. Mas o tempo é aliado e acaba deteriorando o que não se move. Com a minha inércia, eu que tenho que ter cuidado. As pessoas vão, voltam, permanecem, não vão mais ou se vão para sempre, mas eu estou sempre aqui, sempre servindo como estação para trens dispersos. Sempre esperando que voltem, que parem, que acabem com a saudade e sejam realmente responsáveis pelo que cativaram. Mas gente, muitos nem queriam cativar nada, mas sabe como é... aquele bendito alvo fácil que pulsa dentro do peito.
Vez por outra não aguento o peso, derrubo tudo, organizo a casa e jogo o que já não serve, mas as minhas faxinas mais eficientes resultaram em um ‘porão’ abarrotado, sujeito a ação do tempo, vez por outra eu o visito, deixo que a nostalgia transborde os olhos, algumas vezes, lembro com um sorriso doce do que eu guardei ali e não raramente resgato alguma coisa. Não deixo o futuro em paz, não permito que o passado se faça passar e nessa me perco fácil. Tentando trazer o futuro, tentando resgatar o passado. E nessas horas, eu escrevo. É uma maneira de fixar-me ao agora. E tenho buscado tantas outras...
Minhas obviedades não podem ser mascaradas, não pra quem zomba do mistério que eu imponho aqui. Então eu fico quieta, deixo o meu silêncio - quase sempre sinônimo de reflexão. Aquele tempo só meu – acreditem, eu também preciso. Entre crônicas não postadas, entre sentimentos não vividos e vidas não perpetuadas, tenho escolhido meu caminho. Ao menos por enquanto, nada de viver o que me atinge, mas sim atingir o que eu quero viver. E eu não serei branda. Com força, tomada pelo impulso, com a certeza de quem sabe o que quer e nem sempre o que faz. Mas quem de nós sabe? Sou construída de certezas, mas se elas são breves, minhas vontades também serão! Nesse jogo perigoso, pouca coisa fica aqui. Mas o que fica, eu cuido. E o que eu cuido, não vai embora!
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